O Golden se lembrou dele, de mim não

Meu pai está numa casa de repouso em Niterói há oito meses, desde aquela queda na escada do prédio, no terceiro andar. Meu pai, Nelson, mora agora no segundo andar, no canto do corredor que dá para os fundos. O quarto é meio apertado, mas dá pra ver uma mangueira e um pedaço do telhado de uma escola municipal. Nos fundos tem bancos de praça e um vaso enorme com uma primavera sempre meio murcha. Eu ia visitar toda quinta-feira, durante esses oito meses, e de tudo que a gente conversava, o que mais aparecia era o cachorro — não ele mesmo, mas como estava a sopa, ou algum acontecimento qualquer. Ele achava que o Golden, nosso labrador amarelo, ainda morava com ele. "Vê se eu já dei comida pra ele", dizia, ou "abre a porta pra ele um instante, ele tá me esperando." No começo eu lembrava que o Golden estava comigo, em Icaraí, e que ele estava bem. Em algum momento parei de corrigir. Só respondia "já dei sim, pai, acabei de levar ele pra passear", e ele se acalmava.

Naquela manhã em que decidi levar o Golden pra visita, era uma quinta de início de novembro, e o céu estava todo riscado como barriga de tatu. A enfermeira-chefe, Rosângela, concordou, mas no jeito como ela segurou a prancheta vi algo do tipo: "você tem certeza?" Eu mesma não estava tão certa. Às vezes a gente acha que está fazendo por si, não pelo pai. Desde que o transferiram pra casa de repouso, o Golden começou a dormir mais, a envelhecer na nossa frente. O pelo amarelo dele foi clareando perto da boca, as patas de trás ficavam duras de manhã. No passeio, o ritmo diminuiu.

Pensei: depois de tanto tempo, talvez meu pai simplesmente olhe através dele, talvez o Golden sinta o cheiro da primavera e vá pro outro lado. Talvez eu estivesse me metendo numa situação ruim.

Cheguei com o carro no pátio da casa de repouso, o Golden na coleira, no banco de trás. No caminho comprei coxinha pros dois numa padaria perto da feira. Meu pai adora coxinha, e pro Golden eu levo uma ração sabor fígado em sachê — oito reais o pacote. O porteiro, Osmar, sempre perguntava "como vai", e eu respondia "tudo bem", mas por dentro sentia como se tivesse adiantado o relógio pra uma hora que ainda não devia chegar. Não sabia como me preparar.

Pedi pra Rosângela levar o Golden primeiro, sozinha, como um teste. Meu pai estava sentado do lado de fora, num banco de ferro, cobertor sobre os joelhos, de frente pro lado da mangueira. O vidro da porta de entrada refletia atrás dele, e eu fiquei dentro da recepção, atrás do vidro. Não conseguia sair. As minhas mãos suavam na maçaneta, deixando uma marca embaçada que eu limpava e sujava de novo.

Rosângela saiu. Coleira solta. O Golden deu dois passos e congelou. Aquele movimento — como um martelinho que levanta o ombro dele. Passaram três, quatro, cinco segundos. O rabo dele ficou pendendo num ângulo de 45 graus, meio em sentido.

Então o rabo se moveu, uma vez, pra direita e pra esquerda, como um pêndulo que desperta. Meu pai ainda não tinha visto ele. Olhava pra rua, ou pra mangueira, ou pro nada.

O labrador começou a mover as patas. Não andava — cambaleava, mas cada passo ficava mais firme. As listras brancas do piso passavam por baixo dele. Meu pai virou a cabeça — talvez o som da coleira. O queixo dele se ergueu, congelou mais um instante, e só quando o Golden enfiou a cabeça debaixo da mão dele — o focinho molhado colado nas dobras dos dedos — alguma coisa se soltou no meu peito, como um nó que afrouxa de repente.

Ele disse: "Golden?"

Parei de respirar. Fazia oito meses que meu pai não me reconhecia direito, nem duas vezes seguidas, e com o Golden ele falou como se a gente nunca tivesse saído de casa. O Golden se encostou nos joelhos dele, apertou os cotovelos do meu pai pra frente. Meu pai curvou as costas, as duas mãos no rosto do cachorro, repetiu o nome de novo, e o ar que soltou saiu em pedaços, como quem carregou peso demais escada acima.

O rabo — agora batia forte no ferro do banco. Toc-toc-toc, como chuva em calha.

Rosângela ficou do lado, me procurou com os olhos através do vidro. Senti a maquiagem escorrendo e limpei o rosto com a manga do casaco, sem pensar.

A visita durou menos de meia hora. No final, quando Rosângela foi buscar o Golden de volta, meu pai levantou a cabeça pra mim, pela única vez naquele dia, e perguntou assim: "quando ele vem de novo?" Talvez tenha sido a pergunta mais completa que ele me fez em dois meses.

Naquela mesma noite liguei pra Rosângela e combinamos: todo domingo, às cinco e quinze. No dia seguinte de manhã, quando pus os pés no chão, o Golden já estava parado ao lado da porta, a coleira na boca, o rabo batendo no sapateira. Talvez ele também estivesse esperando.

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O Golden se lembrou dele, de mim não