O cafezinho de Terezinha e as passagens que sumiram do sistema

Terezinha Agudo tinha sessenta e dois anos e uma rotina que não mudava havia décadas: às seis da manhã, café coado na hora, levado numa bandeja até o quarto do filho, do jeito que a mãe dela fazia lá em Garanhuns. Naquela manhã de quinta-feira, véspera da viagem para Maceió, ela subiu a escada do sobrado em Jaboatão dos Guararapes com duas xícaras fumegantes e o coração cheio daquela expectativa boba de quem organizou tudo nos mínimos detalhes.

Parou na porta do quarto. A nora, Priscila, estava sentada na cama arrumando a mala, e foi ela quem falou primeiro, sem nem levantar os olhos direito.

"Minha mãe vai no seu lugar. Você não vai mais."

Terezinha ficou parada, as xícaras esquentando as palmas das mãos. Priscila abriu a bolsa e tirou os três passaportes, abanando feito quem exibe um troféu de pesca.

"Já trocamos o nome na reserva do resort. Foi rapidinho."

O filho, Anderson, estava encostado no guarda-roupa, olhando pro carpete como se ali tivesse escrito algo importante.

"Não foi pra te machucar, mãe", ele murmurou, quase sem voz.

Ela não respondeu nada. Desceu a escada com as duas xícaras ainda nas mãos, deixou-as na pia sem lavar e ficou na janela da sala vendo os dois arrastarem as malas até o Onix prata estacionado na rua, rumo ao aeroporto dos Guararapes, pra embarcar na viagem de sete dias que ela tinha planejado desde março. Pacote completo: passagens, hospedagem num resort em Maragogi, passeio de lancha nas piscinas naturais, tudo já pago havia duas semanas, R$ 14.700 no cartão dela, parcelado em oito vezes.

O carro sumiu na esquina. E então, em vez do choro que ela esperava de si mesma, veio uma calma estranha. Fria, quase cirúrgica.

Foi até o escritório pequeno que montara no quarto de hóspedes e ligou o abajur de mesa. Ali, numa pasta azul, estavam as faturas do cartão, os comprovantes da agência de viagens, o print da reserva do resort — tudo em nome dela, Terezinha de Fátima Agudo, CPF cadastrado, cartão de crédito dela, ponto final.

Ela se lembrou de tudo em ordem: dezoito anos atrás tinha vendido a parte que herdara do sítio da família em Caruaru pra ajudar Anderson a montar a autoescola dele. Desde então, sempre que precisava de algo — conserto do telhado, remédio caro da sogra, agora a viagem de aniversário de bodas da nora com a família dela — era o cartão de Terezinha que entrava em cena. "Depois te devolvo, mãe", virou praticamente um refrão.

Ela discou pro número da agência de viagens, um atendimento que funcionava por WhatsApp e que ela já tinha salvo nos contatos.

"Boa noite. Aqui é a Terezinha Agudo, a reserva do pacote Maragogi está no meu CPF e no meu cartão. Preciso cancelar o check-in dos outros dois passageiros agora, hoje à noite, antes do voo de amanhã."

A atendente explicou que, como titular da compra, ela podia sim remover nomes da reserva e pedir reembolso parcial das passagens não usadas, desde que feito antes das 23h daquele dia — prazo que o sistema da companhia aérea ainda permitia sem multa total. Terezinha confirmou cada CPF, cada localizador, com uma firmeza que nem ela reconhecia na própria voz.

Na manhã seguinte, às cinco e quarenta, Anderson e Priscila chegaram ao balcão de check-in do aeroporto dos Guararapes puxando duas malas de rodinha e um carrinho com a sogra de Priscila atrás, animadíssima com o chapéu de palha novo. A atendente digitou o localizador, franziu a testa, digitou de novo.

"Só consta um passageiro ativo nesta reserva, senhor. Terezinha Agudo. Os outros dois nomes foram removidos ontem à noite pela titular da compra."

Priscila tirou o celular do bolso, ligou pra sogra feito um furacão. Terezinha atendeu no segundo toque, sentada à mesa da cozinha, tomando o café que tinha sobrado — agora frio — da bandeja do dia anterior.

"Mãe, o que você fez? A gente tá aqui, o voo sai em quarenta minutos!"

"Eu cancelei os passageiros que não eram eu, Priscila. A reserva é minha. O cartão é meu. A viagem, pelo visto, também passou a ser minha."

Do outro lado da linha, ficou só o som da respiração ofegante de Priscila. Depois a voz de Anderson, tentando puxar o telefone da esposa.

"Mãe, isso é um exagero, devolve o lugar da gente lá, por favor…"

"Não vou devolver nada, meu filho. Vocês decidiram quem ia nessa viagem ontem, na porta do quarto, sem me perguntar nada. Eu só decidi hoje quem vai pagar por ela. E a resposta continua sendo eu — só que sozinha."

Ela desligou o telefone, abriu o aplicativo do banco e conferiu o extrato: o estorno parcial das duas passagens já tinha caído como crédito futuro, R$ 3.200 que ela usaria pra fechar, sozinha, um fim de semana em Porto de Galinhas no mês seguinte. Fechou a pasta azul, levou as duas xícaras do dia anterior pra pia, lavou com cuidado, e deixou escorrendo ao lado da sua, a única que ainda ia precisar.

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