Eu tinha oito anos quando o vovô Osvaldo me levou pela última vez à escola da Rua das Palmeiras, no bairro de São Cristóvão, em Belo Horizonte. Caía uma chuva fina de julho, daquelas que molham por dentro da blusa e não param de incomodar. Eu levava na mão a mochila do meu irmão mais velho — marrom, com o canto descolado, amarrada com um barbante porque o zíper tinha quebrado havia muito tempo. Dentro: dois cadernos de capa dura, um lápis apontado na gilete e um livro de português em que alguém, antes de mim, tinha sublinhado meia página com caneta vermelha.
Eu não tinha mochila com estampa de unicórnio brilhante, daquelas que as meninas do prédio ao lado usavam. Nem estojo — eu guardava os lápis de cor numa caixa de fósforo. E, sendo sincera, nunca me passou pela cabeça que eu devesse me envergonhar disso.
Na turma éramos vinte e seis, e quem dava quase todas as aulas era uma única pessoa: a professora Lurdes Aparecida. Matemática, ciências, história, e até ensino religioso nas quintas-feiras em que o padre não conseguia vir da paróquia vizinha. Ela tinha a voz meio rouca de tanto falar e o costume de andar entre as carteiras com uma régua, que batia na mesa quando alguém conversava demais. Mas não é ela que fica mais forte na minha memória. Fica o Rogério Alves, menino da última carteira, filho de ferroviário, que um dia me deu metade do pão com mortadela dele quando eu esqueci a merenda em casa. Ninguém pediu nada. Ele simplesmente partiu um pedaço e passou para mim por entre as carteiras.
O ventilador da nossa sala nunca funcionava direito e, nos dias mais frios de junho, ficávamos todos de casaco, e a professora Lurdes trazia uma garrafa térmica com café com leite e servia um golinho para quem estava sentindo mais frio. Isso não estava em nenhum plano de aula. Ninguém cobrava isso em prova. Mesmo assim, ficou mais gravado em mim do que a fórmula da área do triângulo.
Passaram-se trinta e sete anos. Hoje sou contadora numa transportadora na região da Pampulha e tenho uma filha, a Sofia, que faz quatorze anos este ano. Na sexta-feira passada ela voltou da escola e jogou o celular na mesa da cozinha — o modelo mais novo, presente do pai dela, meu ex-marido, que a vê de quinze em quinze dias e compensa com presentes.
— Mãe, todo mundo tem mochila da Kipling. Só eu ando com essa velha.
— Essa mochila tem um ano, Sofia.
— Pois é. Um ano.
Eu não gritei. Pousei o garfo, porque estávamos jantando naquele momento — pão com queijo e presunto, o mesmo que eu comia quando era criança. Olhei para ela e pensei no Rogério Alves, no pão com mortadela, no fato de que não lembro do rosto de nenhuma criança com mochila cara daquela época, mas lembro de cada gesto de quem dividia o que tinha.
Falei só uma frase, sem levantar a voz:
— Compra essa mochila com o seu próprio dinheiro, quando juntar. Daí ela vai ser realmente sua.
A Sofia saiu ofendida, bateu a porta do quarto. Eu não corri atrás dela. Fiquei sentada à mesa, terminei o café já frio e comecei a juntar os pratos.
O acordo foi esse: limpar o apartamento da vizinha, dona Rosa, durante um mês, oitenta reais por semana. Depois da primeira semana, a Sofia voltou com o aspirador batendo na soleira da porta e anunciou, ainda na entrada, que não ia mais lá, porque dona Rosa tinha mandado ela limpar os vidros, e isso não estava no acordo. Discutimos perto da pia, ela com a esponja na mão, eu com um prato que já estava secando havia três vezes.
— Era pra limpar, não pra ficar negociando as condições depois de uma semana.
— Isso é injusto.
— A vida, de vez em quando, é.
Ela bateu o armário embaixo da pia com tanta força que os copos chacoalharam lá dentro. Durante dois dias ela só falou comigo um "boa noite" jogado de qualquer jeito. No terceiro dia, ela mesma pegou a chave de dona Rosa em cima da mesinha do corredor e saiu sem dizer nada. Não perguntei o que a convenceu. Talvez tenha sido o envelope da primeira semana, guardado na gaveta dela, com os oitenta reais que ela mesma tinha ganhado.
Três semanas depois, a Sofia me trouxe um envelope com cento e quarenta reais. Jogou na mesa, sem falar nada, com uma cara que dizia: toma, já sou grande, me deixa em paz. Eu não respondi com ironia. Peguei o envelope, completei com cento e vinte reais meus, tirados do envelope de "gastos variados" que guardo na gaveta da cozinha, e fomos juntas de ônibus até o shopping.
A mochila custava trezentos e noventa e nove reais. A Sofia pagou no caixa sozinha, contando as moedas da carteira, e a vendedora esperou com paciência enquanto ela contava os últimos cinco reais em moedinhas. Vi minha filha pegar a sacola com a logo da loja e apertar contra o peito com mais força do que apertaria qualquer coisa que eu tivesse comprado com um clique no celular.
Na volta, no ônibus com cheiro de capa de chuva molhada de algum senhor mais velho e de óleo de motor, a Sofia encostou a cabeça no vidro e falou baixinho, mais pra ela mesma do que pra mim:
— É bobo eu estar tão feliz por causa de uma mochila.
— Não é bobo. É sua.
Do lado de fora, caía uma garoa inclinada de julho, borrando as luzes das lojas no vidro. A Sofia ficou sentada com a sacola no colo, abraçando com as duas mãos, e ficou calada até o nosso ponto.












