Alugo um apartamento num prédio antigo de concreto no Méier há onze anos. Nesse tempo aprendi a reconhecer todos os sons dos vizinhos: quando ligam a máquina de lavar, quando alguém chega do trabalho, quando jantam. As paredes aqui são finas como papel de cigarro. Mas o que ouvi na quinta-feira passada me fez desligar a televisão e me aproximar da parede.
Os vizinhos são a Luciana e o Marcelo, um casal mais jovem, uns quarenta anos, com dois filhos. Sempre me pareceram normais: de manhã correm pro ônibus, nos fins de semana fazem churrasco na varanda. Eu nunca imaginaria que ali dentro acontecia aquilo.
Primeiro veio um barulho metálico. Como se alguém estivesse sacudindo uma porta de ferro. Depois uma voz masculina:
— Você ficou louca? Cadê a comida?
Encostei o ouvido na parede. Dava para ouvir algo pesado bater no chão, depois passos calmos, e a voz da mulher, firme, sem nenhum traço de histeria:
— Tranquei a geladeira com cadeado de senha. No dia em que aparecer na nossa conta o valor que tinha anteontem, eu te dou a senha.
Fiquei paralisada. Senti um frio na barriga. A Luciana — professora do ensino fundamental, uma mulher quieta e educada. Já a vi cem vezes na entrada do prédio com um buquê de flores no Dia dos Professores. E agora ela tinha trancado o marido pra fora da comida.
O que vinha depois foi ainda mais interessante.
— Esse dinheiro também é meu! — berrou o Marcelo. — Eu tenho direito de decidir! Eu sou o homem da casa!
— Você tem direito sobre a sua metade — cortou a Luciana. — E ontem você transferiu toda a nossa reserva pra sua mãe. Os doze mil reais inteiros. Três anos juntando pra entrada do apartamento. Pros nossos filhos. E agora tá tudo zerado.
Me afastei da parede, sentei no sofá velho com aquele molejo que fura a coxa. Fiquei com um certo medo. Eu conhecia o Marcelo — trabalha como gerente numa loja de autopeças, sempre com aquela cara de orgulho, pasta a tiracolo. E descobri que ele simplesmente transferiu uma quantia enorme pra mãe.
— O telhado dela tava com vazamento! — rugiu o Marcelo. — Eu não ia deixar a velhinha na mão! Eu sou filho único!
— Esse telhado foi refeito há cinco anos. E há três anos trocaram o muro. A gente ajudou com isso, lembra? Até quando vai ficar reformando aquela chácara? Ela mora o quê, numa mansão?
Quase ri. Mas foi um riso amargo. Eu também já vivi aquilo: meu ex-marido mandava dinheiro pra mãe dele, que morava em Caruaru, enquanto a gente ficava os três comendo arroz com ovo frito. Só que eu nunca tranquei a geladeira, só fui embora. Depois de um ano. Quando já não tinha mais forças.
Através da parede veio uma pancada de punho na mesa. Alguma coisa tilintou — devia ser uma xícara.
— Eu vou pra lanchonete! — gritou o Marcelo. — Não preciso da sua caridade!
— Vai. Só que bloqueei o cartão. Ele tá no meu nome, se você lembra. E de dinheiro vivo você tem exatamente a passagem de ônibus. Já conferi.
Por alguns segundos reinou o silêncio. Tão espesso que eu conseguia ouvir, longe, um cachorro latindo no quintal de alguém — vinha um cheiro de churrasco de algum vizinho misturado com fumaça de fogueira. Depois de novo a voz do Marcelo, agora mais baixa:
— Você tá falando serio? Vai me deixar passando fome?
— Não. Eu só estou protegendo o que é meu. Você decidiu que podia gastar o dinheiro da gente sem me consultar — agora decida o que fazer com seu estômago.
E aí ouvi algo que me fez levantar do sofá e ir até a janela — por algum motivo quis ver ele saindo. O Marcelo bateu a porta com tanta força que um copo na minha janela chacoalhou. Olhei pra fora — ele atravessava o quintal com as mãos nos bolsos da jaqueta, chutando com fúria uma garrafa vazia de refrigerante. Ela rolou pelo asfalto e foi parar junto da lixeira.
Na manhã seguinte acordei de novo com o barulho. Era por volta das sete, eu estava fazendo café. Na cozinha dos vizinhos tinha algo retumbando, depois a voz do homem:
— Cadê o café? Você trancou o café também?
— E o café, e o açúcar, e o macarrão, e o arroz. Tudo que foi comprado com o meu salário — veio a resposta calma.
— E o que eu vou comer?!
— Aveia. Deixei um pacotinho na mesa. A chaleira está no meu quarto.
Imaginei ele parado na cozinha de pijama, desarrumado, furioso, olhando pra aquele pacotinho miserável de aveia. E senti uma satisfação quase física. Não porque sou má. Mas porque a Luciana estava fazendo o que eu nunca tive coragem de fazer.
De noite ouvi o Marcelo voltando do trabalho. Ele falava alguma coisa, não conseguia entender as palavras porque a geladeira do meu quarto estava ligada, mas depois ele gritou alto:
— Vou colocar no viva-voz! Que a minha mãe explique tudo!
E veio a voz feminina do telefone, doce como xarope de farmácia:
— Marcelinho, filho, estou ligando porque… o pessoal da obra chegou, uns rapazes tão trabalhadores!
— Viu! — exclamou o Marcelo. — Tiraram o telhado?
— Ai, que telhado, filho! — riu a mãe. — O telhado ainda aguenta. Deram uma geral com lona asfáltica, os rapazes disseram que dá pra uns três anos sem vazar. Eu pensei: já que apareceu esse dinheiro, vou construir uma varanda!
Fiquei na cozinha com uma xícara de café já fria. Lá fora as primeiras folhas do flamboyant caíam rodopiando, e dava para ouvir, em algum parquinho, o choro de uma criança que não era minha. E através da parede — uma pausa sonora, quase teatral. Eu via a cena sem poder vê-la: o Marcelo parado com o telefone na mão, o rosto branco como cal, e a Luciana olhando pra ele do jeito que uma mulher olha pro marido que ela acabou de deixar de respeitar.
— Então, Marcelinho, você não tá contra, né? — a mãe continuava tagarelando. — Já encomendei o material, já dei o adiantamento pro pessoal. Você entende, velhice não é fácil, tem que ficar tudo bonitinho!
— Mãe — a voz do Marcelo saiu como se tivessem tirado todo o ar dele — a senhora disse que o telhado estava vazando. Que o madeiramento estava podre.
— Tava um pouquinho, e aí? — respondeu a mãe, despreocupada. — Deram uma geral e resolveu. E a varanda é um sonho! Vou fazer conserva de pepino lá, e no verão a família toda se reúne. Os filhos vêm, os netos. Você não quer que a vovó tenha um cantinho gostoso?
A Luciana não disse nada. Ouvi ela saindo da cozinha, e só depois — o Marcelo jogando o celular na mesa com força. O som foi como se alguém tivesse quebrado uma casca de ovo. Depois uma cadeira pesada foi arrastada, e ele se sentou nela, rangendo os pés no piso.
Não consegui dormir aquela noite. Fiquei olhando pro teto, por onde passavam os reflexos dos faróis dos carros na rua. Pensava na Luciana. Nos doze mil reais dela, nos três anos dela usando as mesmas botas velhas, no sonho dela de um apartamento onde os filhos tivessem quartos separados. E em como ela trancou a geladeira, e como deve ter sido difícil — não só ficar com raiva, mas transformar a raiva em ação.
Lá pelas três da madrugada ouvi a porta dos vizinhos abrir. Depois a voz do Marcelo:
— Qual é a senha, Luciana? Vamos conversar.
E a voz da Luciana, cansada, mas firme:
— A senha é 1-2-0-0. Como os doze mil reais. Como os três anos que eu não vou recuperar. Como os três quartos que a gente poderia ter comprado. Devolve o valor, eu devolvo seu acesso. Se não — vive da sua aveia.
— Mas eu não podia saber que ela ia gastar tudo numa varanda!
— Claro que não podia. Porque você não trabalha com informação, você trabalha com os telefonemas da sua mãe. Conta aí: há quantos anos você já tá reformando o quintal dela? Seis? Sete? Agora conta quantos anos você não leva as crianças pra praia. Pra eles — seus filhos — seria a primeira vez.
Fechei os olhos. A voz da Luciana não soava com ódio. Nem soava triste. Soava como uma decisão que já tinha maturado há tempos, mas que era difícil dizer em voz alta.
Na manhã seguinte encontrei a Luciana na entrada do prédio. Ela saía de casa com uma pasta grande de documentos. Não quis fingir que não tinha ouvido nada, então só dei bom dia e disse:
— Que tempo bom hoje.
— É — respondeu ela. — O outono tá quente.
Vi que ela tinha olheiras roxas. Mas o olhar era claro. Daqueles que eu mesma não via no espelho há anos.
— A senhora vai ao médico? — perguntei.
— Não, vou ao advogado. Vou dar entrada no divórcio.
E ela entrou no ônibus que ia pro centro.
Passaram alguns meses. Eu via a Luciana cada vez menos — agora ela dormia muito na casa de uma amiga, buscava os filhos na escola por outro caminho. Até que uma noite ela bateu na minha porta — pela primeira vez em onze anos de vizinhança.
— Desculpa incomodar — disse ela. — Eu sei que a senhora escuta tudo pela parede. Não precisa ter vergonha, no seu lugar eu também escutaria.
Ela sorriu, e percebi que esse sorriso já não era tão cansado como o daquela manhã na entrada.
— A Justiça reconheceu o apartamento como bem comum do casal — disse ela. — Me deram direito à metade. Comprei a parte do Marcelo — minha mãe me empatou, vou pagar em dois anos. E vou vender o apartamento. Achei um lugar em Nova Iguaçu, mais perto da escola onde estou trabalhando agora.
— E o Marcelo?
— Pegou a parte dele e foi pra casa da mãe. De passagem, segundo ele. — Ela deu de ombros. — Deve ser lá que vão terminar a tal varanda.
Duas semanas depois apareceu uma placa de "vende-se" no prédio, com fotos da cozinha onde um dia girou o botão daquele cadeado de senha. E, alguns dias depois, vi o Marcelo na entrada com duas malas. Ele olhava pras janelas — não a minha, a antiga da Luciana, onde já tinha luz acesa: o novo proprietário trazendo caixas pra dentro.
— A senhora não sabe pra onde ela se mudou? — ele me perguntou quando eu saía pra jogar o lixo.
— Sei — disse eu. — Mas não vou dizer. Ela me pediu.
Ele assentiu, como se já esperasse isso, pegou as malas e seguiu pro ponto de ônibus. Do bolso da jaqueta dele saía um saquinho de chá barato.
Subi pra casa, fiz um chá e fiquei um bom tempo sentada perto da janela. Lá fora a sorveira já estava carregada de cachos vermelhos, e algum lugar no céu um avião desenhava uma risca branca. Depois peguei o celular e mandei mensagem pra Luciana:
"Ele veio aqui. Deve ligar em seguida. Não atende se não quiser."
Ela respondeu em um minuto:
"Obrigada. Já não atendo mais."
Desliguei a tela, tirei de debaixo da pia um saco de tangerinas que tinha comprado na feira de sábado, e coloquei na mesa. Descasquei uma, e pus a casca no aquecedor, pra ficar aquele cheiro no quarto, como minha avó fazia.
Na manhã seguinte, quando eu saía pro trabalho, do antigo apartamento da Luciana uma mulher de avental apareceu olhando pro corredor e chamou alguém:
— Vasco, olha, ficou essa sapateira aqui. Deixa?
— Deixa — respondeu uma voz de homem. — Alguém vai aproveitar.
Passei desviando de uma poça onde o céu se refletia, e ouvi, pelas costas, a mulher ainda comentando algo sobre as cortinas — muito longas, ia precisar cortar.










