A árvore que sobreviveu ao inverno

Cristina Albuquerque tem sessenta e quatro anos e exatamente uma amiga com quem pode contar sem pensar duas vezes. Chama-se Zélia Marinho, mora três andares abaixo, no mesmo prédio na Rua das Palmeiras, no bairro de Casa Amarela, no Recife, e há trinta e oito anos não deixa passar uma quinta-feira sem telefonar.

Antes era diferente. Cristina lembra da época em que na sua agenda telefônica havia vinte e seis nomes anotados — colegas da fábrica de tecidos onde trabalhou, vizinhas do conjunto habitacional antigo, amigas do curso de corte e costura. Hoje a maioria dessas páginas está amarelada, os números já não servem para nada. As pessoas se mudaram, enterraram os maridos, se fecharam dentro dos próprios apartamentos ou simplesmente deixaram de ligar.

Começou com uma coisa pequena. Cristina estava sentada na cozinha, revirando o café com uma colherinha na beira lascada da xícara — a mesma que ganhou da mãe no aniversário de trinta anos — olhando para o celular ao lado do pão de forma. Vinte e três de dezembro, do lado de fora chovia aquela garoa fria que o Recife não costuma dar, mas aquele ano estava estranho. Ela tinha mandado mensagem de fim de ano para oito pessoas. Só duas responderam.

— Sabe o que mais me dói? — disse na época para Zélia, pelo telefone. — Não é que elas não responderam. É que antes eu ligava primeiro, porque sabia que elas mesmas não ligariam. E agora fico pensando pra que eu fiz isso durante tantos anos.

Zélia não respondeu de imediato. Cristina só ouviu a porta do forno bater do outro lado — Zélia estava assando um bolo de rolo para a ceia — e depois a voz, sem nenhum traço de consolo forçado:

— Porque tem gente que a gente só entende depois de anos que não vale a pena o nosso telefonema. Isso não é tempo perdido. É conhecimento.

Cristina guardou essas palavras, porque eram verdadeiras, não bonitas. Zélia nunca falava bonito. Falava do jeito que pensava.

Se conheciam desde o colégio na Avenida Conde da Boa Vista, depois trabalharam na mesma fábrica, cada uma casou num ano diferente, cada uma enterrou o marido — Zélia em dois mil e onze, Cristina quatro anos depois. Quando morreu Severino, a ambulância saiu de madrugada, às seis da manhã, e às seis e meia Zélia já estava na porta, com o casaco por cima da camisola, com uma garrafa térmica de café. "Não vou perguntar se você quer que eu fique. Eu fico" — disse, e passou três dias naquele apartamento, cozinhando e atendendo os telefonemas que Cristina não tinha forças para atender. O resto das conhecidas mandou condolências por WhatsApp, e uma das colegas da fábrica só escreveu: "Força, me liga se precisar" — e nunca mais apareceu.

Mas o que aconteceu no outono passado foi outra coisa. Não foi mais uma prova — foi o teste depois do qual já não dava para fingir mais nada.

Cristina foi internada no Hospital das Clínicas com pneumonia. Nove da noite, quarto dia na clínica médica. Do lado de fora da enfermaria estava escuro, no corredor se ouvia o carrinho de remédios passando, e o soro pendurado acima da cama gotejava num ritmo que Cristina já tinha conseguido contar — uma gota a cada dois segundos. O termômetro marcava trinta e oito e nove. Ficava deitada com o celular em cima do lençol, tela para cima, para ver se alguém ligava.

De manhã mandou mensagem para a filha: "Piorei um pouquinho, mas não é nada grave, não se preocupe". Para a colega de trabalho com quem antes dividia a mesa: "Estou internada, será que você passa aqui?". Para a vizinha do térreo, com quem trocava receita de feijão havia anos: a mesma coisa. Todas responderam no mesmo dia — "com certeza eu passo lá, só espera eu dar um jeito", "força, estou pensando em você", "qualquer coisa me avisa". Nenhuma apareceu.

Às nove e meia da noite a enfermeira mediu a temperatura dela pela segunda vez naquela noite e sacudiu a cabeça, sem dizer nada. Cristina ficou olhando para o teto, para uma mancha de umidade que parecia um mapa, contando mentalmente quantas horas faltavam até o amanhecer. O celular ficava mudo. Pegou o aparelho, checou se não tinha passado nenhuma ligação. Não tinha nada. Colocou de volta sobre o lençol, tela para cima.

A porta da enfermaria rangeu às dez e vinte. Cristina não tinha força para levantar a cabeça, mas reconheceu os passos — desiguais, porque Zélia tem uma mancada na perna esquerda desde que fraturou o fêmur.

— O horário de visita acabou às oito — disse Cristina em vez de cumprimento, com a voz rouca de febre.

— Eu disse pra enfermeira que sou sua irmã. — Zélia colocou a bolsa na cadeira e começou a tirar uma garrafa térmica de dentro dela. — Não me pergunta se é verdade. O importante é que ela me deixou entrar.

Serviu caldo de galinha num copo, segurou junto à boca de Cristina, porque as mãos dela tremiam demais para sustentar o copo sozinha.

— Liguei pra todo mundo — disse Cristina entre os goles. — Ninguém veio.

— Eu sei. Por isso eu estou aqui.

Ficaram assim até a meia-noite. Zélia sentada na cadeira de plástico, segurando a mão de Cristina, até a febre começar a baixar e a respiração ficar mais tranquila. Do outro lado da parede, no corredor, havia outra paciente, dez anos mais velha, a quem ninguém tinha visitado durante a semana inteira. Quando Zélia terminou de servir o resto do caldo, Cristina pediu que ela levasse um pouco também para aquela senhora. Zélia fez isso sem dizer nada, simplesmente despejou a metade num outro copo e levou pelo corredor.

Cristina saiu de alta depois de nove dias. Em casa, antes mesmo de desfazer a bolsa com as coisas do hospital, pegou a velha agenda de telefones — a mesma, com os vinte e seis nomes escritos ainda com a caneta azul que já tinha secado na metade das páginas. Sentou à mesa da cozinha, pegou uma caneta nova e começou a ler os nomes um por um.

O primeiro riscou sem pensar duas vezes — uma colega que não respondia nem às mensagens de fim de ano havia três anos. O segundo, o terceiro, o quarto — foi ficando mais rápido, até a mão encontrar o próprio ritmo.

Parou no décimo sétimo nome. Rosana Barbosa. A mulher com quem tinha sentado na mesma carteira do colégio, bem antes de conhecer Zélia, com quem tinha ido a casamentos, a batizados, que segurou a mão de Cristina quando ela estava em trabalho de parto e o marido não chegou a tempo ao hospital. A caneta ficou suspensa sobre o papel. Cristina pensou naquele dia na maternidade, em Rosana segurando sua mão, em como as duas estavam com medo.

E depois pensou nos nove dias de hospital e no celular mudo em cima do lençol.

Riscou o nome com um traço só, forte, de um jeito que rasgou o papel.

Sobraram oito números. Entre eles — Zélia, o filho que mora em João Pessoa, a filha que mora no Recife mesmo, duas vizinhas com quem de fato tomava café uma vez por semana, e três pessoas que, mesmo com contato raro, sempre respondiam no mesmo dia.

Hoje, em outubro, quando do lado de fora se ouve a garotada jogando bola na quadra do conjunto e o cheiro é de grama cortada vindo do varal, Cristina está sentada na varanda com Zélia. Tomam café feito naquela cafeteira de coador elétrico antiga, que Zélia comprou em dois mil e três e que ainda funciona melhor do que os modelos novos. Na mesinha tem um pratinho de biscoito de aveia, que Zélia sempre traz, porque lembra que Cristina não pode comer muito açúcar por causa do diabetes.

— Sabe uma coisa — diz Cristina, olhando para a varanda vizinha, onde alguém está estendendo roupa — as vezes eu penso que se a gente não tivesse se sentado naquela mesma carteira no colégio, hoje eu não teria ninguém.

— Mas a gente se sentou — responde Zélia, pousando a xícara. — E isso é a única coisa que importa.

Cristina não diz mais nada. Pega o biscoito, quebra na metade, oferece a outra metade para Zélia — como sempre fizeram, desde que se lembra, sem perguntar se a outra quer.

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A árvore que sobreviveu ao inverno