Rose Anderson

Era a terceira sexta-feira de outubro e a loja Maison Lamour, na Oscar Freire, estava quase vazia quando Marina Valverde entrou arrastando uma sacola de pano puída pelo uso.

Carolina Prado viu a cena de longe, do balcão de champanhe onde ajudava um cliente a escolher um smoking. Viu a mulher parar diante do vestido de seda branca exposto no manequim central — aquele da coleção de noiva, avaliado em cento e oitenta mil reais — e estender a mão para tocar o ombro da peça.

— Tire as mãos antes que estrague uma coisa que você jamais poderia pagar.

A voz de Yasmin Cordeiro cortou o ar da loja. Ela arrancou o vestido dos dedos de Marina com um puxão seco, o tecido estalando contra o trilho de latão. O cabide de cristal bateu na barra e soou pela loja inteira como um sino quebrado.

Marina não recuou. Ficou ao lado da plataforma, a mão ainda no ar, como se o vestido tivesse sido tirado no meio de um exame cuidadoso.

Alguns clientes se viraram.

Yasmin segurou o vestido contra o peito, num gesto teatral de proteção.

— Vocês sempre dizem que estão só olhando — falou, os olhos percorrendo o cardigã azul desbotado de Marina, os sapatos práticos, a sacola de pano.

— Vocês quem? — Marina baixou a mão.

— O tipo de gente que entra aqui sem entender onde está.

Marina correu os olhos pelas paredes espelhadas, o mármore polido, os provadores reservados, os manequins vestindo peças de mais de cem mil reais cada uma.

— Eu sei exatamente onde estou.

Yasmin riu, um riso curto que ecoou mais longe do que ela esperava. Duas moças perto da seção de festa pararam de cochichar e passaram a observar abertamente. Um homem junto ao balcão de espumante ergueu o celular.

Marina voltou a atenção para o vestido.

— Tem uma tensão aqui, embaixo do ombro esquerdo.

— Você não tem competência pra avaliar o nosso trabalho.

— O forro foi cortado no sentido errado do tecido. Puxa o ombro.

— Para de fingir que entende de alta-costura.

— Se alguém usar essa peça por mais de vinte minutos, o ombro vai torcer.

Yasmin se colocou entre Marina e a vitrine, os saltos batendo secos no mármore.

— A senhora precisa sair.

— Vim falar com o dono.

— O dono não recebe estranhos que entram da calçada.

— Me disseram que ele estaria aqui hoje à tarde.

— Quem disse isso?

— O assistente dele.

Yasmin olhou para a recepcionista, que baixou os olhos na hora. Não havia nenhum horário marcado na agenda. Nenhuma cliente particular tinha sido avisada. Nenhum carro importado esperava na porta. E Marina Valverde, de sessenta e sete anos, parecia ter descido de um ônibus da linha 609, do Butantã.

A confiança voltou ao rosto de Yasmin.

— A senhora foi enganada.

— Seria estranho.

— A Maison Lamour atende clientes sérios.

— Eu levo roupa a sério há mais tempo do que você tem de idade.

Algumas pessoas trocaram olhares. Yasmin percebeu, e o constrangimento no rosto dela virou raiva.

— A senhora acha que ter idade dá o direito de me insultar?

— Eu não te insultei. Eu apontei um defeito.

— A senhora tocou um vestido de cento e oitenta mil reais sem permissão.

— O preço não conserta a costura torta.

O homem do balcão de espumante segurou um riso. Yasmin viu, e sua postura enrijeceu.

— Vou chamar a segurança.

— Prefiro terminar minha conversa primeiro.

— Não existe conversa nenhuma.

Marina enfiou a mão na sacola de pano. Yasmin deu um passo pra frente, na defensiva.

— O que a senhora está fazendo?

— Vou te mostrar uma coisa.

— Mantenha as mãos onde eu possa ver.

Marina parou. A loja ficou mais quieta. Uma das moças ergueu o celular mais alto.

E foi aí que Marina tirou da sacola um envelope pardo, amassado nas bordas de tanto ser carregado de um lado pro outro, e um caderno de capa dura, cheio de recortes de tecido grudados com fita adesiva.

— Eu sou costureira há quarenta e um anos — disse ela, abrindo o caderno sobre o balcão mais próximo. — Trabalhei treze anos na École de Couture, em Paris, antes de voltar pro Brasil. Fui eu quem cortou o vestido de noiva da Beatriz Lamour, em 1994, pro casamento dela com o Henrique.

Yasmin congelou com o nome.

— A senhora está inventando.

— Henrique Lamour era meu cliente antes de virar dono dessa loja. Ele me prometeu, na época, que se um dia abrisse um ateliê com o nome da família, eu seria a mestra de corte. Morreu ano passado sem cumprir. O filho dele, o Thiago, me chamou essa semana — disse que ia honrar a palavra do pai.

A recepcionista, agora pálida, pegou o telefone e discou um ramal interno, as mãos tremendo.

Foi nesse instante que Thiago Lamour saiu do escritório dos fundos, terno cinza, sem gravata, o celular ainda na mão com uma ligação que tinha acabado de atender.

— Dona Marina! — ele apertou o passo. — Desculpa a demora, eu tava numa reunião.

Yasmin ainda segurava o vestido, mas os dedos já começavam a afrouxar.

— Senhor Thiago, essa senhora entrou sem avisar e…

— Ela tinha hora marcada comigo, Yasmin. Às três. Você não olhou a agenda do meu e-mail, só a do sistema da loja.

O silêncio que se fez ali tinha outro peso. As duas moças com celular na mão agora filmavam Thiago, não mais Marina.

— Dona Marina trabalhou com meu pai — continuou ele, se virando pra loja inteira, a voz um pouco mais alta do que precisava. — Foi ela que ensinou ele a cortar um caimento decente antes de ele ter dinheiro pra abrir essa loja. E foi ela que segurou a mão dele no hospital, em 1998, quando ele quase perdeu a oficina pra um sócio folgado. Ele me contou essa história desde que eu era criança.

Marina fechou o caderno.

— Eu vim pra assinar o contrato de consultoria, Thiago. Não pra brigar com ninguém.

— E vai assinar. — Ele olhou pra Yasmin. — Esse vestido que você tá segurando com tanto carinho agora, dona Marina identificou o defeito em menos de dois minutos. A gente ia entregar essa peça pra noiva da família Esteves semana que vem.

Yasmin examinou o ombro do vestido com atenção, as mãos já buscando a costura sob o forro.

— Eu… não sabia que a senhora era…

— Pega a agulha — cortou Marina, já estendendo a mão. — Me mostra onde você fixou o forro.

Thiago tirou do envelope as folhas do contrato, já assinadas pelo advogado da família. Estendeu a caneta pra Marina, que assinou ali mesmo, em pé, apoiando o papel no balcão de mármore onde minutos antes tinha sido chamada de estranha vinda da calçada.

— Yasmin — disse Thiago, a voz seca —, você vai cuidar da entrega dos Esteves pessoalmente, com a dona Marina revisando cada peça antes de saída. Semana que vem eu quero ver o relatório.

Yasmin engoliu em seco e pegou o alfinete e a agulha que a recepcionista já trazia numa bandeja de veludo.

Marina puxou um banquinho e se sentou diante do manequim, o caderno aberto ao lado sobre o mármore.

— Vira o forro pra mim. Isso. Agora olha o fio da trama — ela passou o dedo na costura torta. — Você cortou na direção errada. Por isso ele puxa.

— E eu corrijo como?

— Descosturando esse trecho aqui, dois centímetros, e remarcando o viés antes de fixar de novo.

Yasmin pegou a tesourinha e começou a desfazer os pontos, com cuidado, enquanto Marina acompanhava cada movimento por cima do ombro dela.

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