A noite em que Rogério voltou sem a jaqueta, eu já sabia que aquele casamento tinha acabado. Não porque uma peça de roupa desaparecida fosse prova de nada. Mas porque, quando perguntei onde ela estava, ele olhou primeiro para o teto — como quem procura alguém no andar de cima — antes de olhar para mim.
— Não começa, Juliana — disse, com aquela paciência fingida que usava quando já tinha decidido que a culpa era minha. — Só ajudei a Patrícia um minuto. Ela mora sozinha com o menino. Para de ser mesquinha.
Patrícia de novo. A vizinha do apartamento 402, lá em Curitiba, no prédio onde morávamos desde que eu abrira meu ateliê de costura no térreo. A mãe solteira "tão boa", "tão desamparada", "tão agradecida". Naquela mesma manhã eu tinha pedido a Rogério para buscar minha encomenda de tecidos importados na transportadora — eu esperava havia três semanas um lote de seda para fechar um vestido de festa que valia oitocentos reais de encomenda.
— Não posso, estou enrolado — ele respondeu.
Quarenta minutos depois, vi pela câmera do interfone ele subindo com duas caixas enormes da Patrícia nos braços.
Na semana anterior, a cortina da nossa sala ficou doze dias pendurada torta porque o trilho tinha soltado. Rogério nem olhou. Mas subiu ao 402 com a caixa de ferramentas debaixo do braço.
— A Patrícia não consegue furar a parede sozinha com o menino em casa, Ju.
Quando tive uma amigdalite forte e quase não conseguia falar, pedi para ele passar na farmácia e comprar um anti-inflamatório. Demorou duas horas. Voltou sem o remédio.
— Ela torceu o tornozelo, não conseguia descer. Levei o seu lá, depois eu compro outra coisa pra você.
E ainda completou:
— Além disso, ela fez um chá de gengibre com mel pra minha garganta. Que gesto bonito. Diferente de você, que só sabe reclamar.
Mas o dia do meu aniversário foi diferente. Eu tinha preparado jantar, velas, um bolo pequeno e uma garrafa de espumante. Esperei com o celular na mão até as velas derreterem sozinhas. Ele chegou duas horas e meia atrasado, sem camisa, cabelo molhado, marcas vermelhas nas costas.
— Estourou o registro do chuveiro da Patrícia — explicou, sem olhar nos meus olhos. — A água saiu com força, me encharcou todo. O menino começou a chorar. Ela me enxugou com uma toalha pra eu não ficar gripado.
Fiquei olhando pra ele.
— E a sua jaqueta?
Rogério respirou fundo.
— Deixei secando lá. Juliana, você tá doente de ciúme, sério.
Não discuti. Levantei, fui até o hall de entrada, tirei minha chave reserva do chaveiro dele e joguei no chão, perto dos pés dele.
— Então sobe e fica com ela.
Nesse instante o elevador abriu no quarto andar. Patrícia enfiou a cabeça no corredor, a jaqueta dele pendurada no dedo. Usava um robe de cetim rosa-champanhe e sorria como quem tinha ganhado alguma coisa.
— Rogério, amor, você esqueceu isso aqui. E já que você tá aqui… a luminária do meu quarto voltou a dar problema. Será que a Juliana me empresta seu homem mais um pouquinho?
"Seu homem." Foi exatamente assim que ela falou. Rogério se moveu na hora, ficando entre ela e eu.
— Foi brincadeira — soltou pra mim. — Pode parar de fazer cena?
Aquele gesto doeu mais que todas as desculpas juntas. Porque Patrícia não tinha sido sempre essa mulher que descia perfumada pedindo açúcar. Um ano antes, eu a tinha encontrado chorando no jardim dos fundos do prédio, o filho dormindo no colo, duas malas rasgadas no chão. O ex-marido tinha jogado ela na rua depois de uma briga feia. Fui eu quem ligou pra minha tia Rosângela, dona do prédio. Fui eu quem pediu pra ela alugar o 402 por um preço simbólico. Fui eu quem levou lençol, prato, cobertor, roupa de criança.
Patrícia me abraçou naquele dia e disse:
— Nunca vou esquecer o que você fez por mim.
Tinha razão. Ela não esqueceu. Só aprendeu onde bater.
Quando ouvi os passos de Rogério subindo a escada pra ir até ela, entrei em casa sem fazer barulho. Debaixo da cama tinha duas malas prontas desde três dias antes. Ele nem notou — já não via mais nada que não tivesse a ver com Patrícia. Saí arrastando as malas pelo corredor. Bem na hora em que chamei o elevador, as portas abriram e um homem de jaqueta clara apareceu na minha frente. Por um segundo o tempo pareceu dobrar.
— Juliana.
Fábio Nogueira. Meu primeiro namorado, meu vizinho de infância em Ponta Grossa. O garoto que tinha ido estudar arquitetura em São Paulo e que eu não via havia cinco anos. Estava mais sério, mais alto, mais calmo. Numa mão, sacola de supermercado; na outra, um molho de chaves novinhas.
— Acabei de me mudar pro 201 — disse, sem desviar o olhar das minhas malas. — Você tá bem?
— Tô. Só… mudança de ares.
Ele não fez pergunta. Só puxou a sacola pra um lado pra eu poder passar. Ao entrar no elevador, senti o cheiro suave de sândalo na jaqueta dele. Alguma coisa no meu peito afrouxou, como se uma parte antiga de mim lembrasse que existiu um tempo em que ninguém me chamava de exagerada por sofrer.
Peguei um táxi até a casa da tia Rosângela. Antes de entrar, abri a conversa com Rogério e escrevi: "Terminamos."
Ele respondeu vinte minutos depois. "De novo esse drama?" Depois: "Tô jantando na casa da Patrícia. Amanhã a gente fala quando você se acalmar."
Desliguei a tela. Minha tia não perguntou nada ao me ver com duas malas. Só abriu mais a porta.
— Já comeu?
Neguei com a cabeça.
— Então vai no banho. Vou esquentar um caldo.
Naquela noite não chorei. A barriga doía fazia dias. A menstruação tinha atrasado quase três semanas, mas eu atribuía ao estresse, ao trabalho, a tantas noites dormindo com um homem que já estava emocionalmente em outro apartamento.
Na tarde seguinte, depois de finalmente entregar o vestido da encomenda, recebi uma mensagem de uma imobiliária parceira da minha tia: "Dona Rosângela, continuamos interessados em alugar o apartamento 402 quando ficar vago. Pagamos o dobro do aluguel atual."
Fiquei olhando pra tela um bom tempo. O 402. O apartamento barato onde a Patrícia morava. O apartamento da minha tia. O abrigo que eu mesma consegui pra ela. Encaminhei o print pra Rosângela e escrevi: "Tia, quando o contrato acabar, não renova. Que a Patrícia saia."
Três minutos depois, minha tia me mandou um áudio. Abri. A voz dela saiu baixa, tensa.
— Juliana, vem aqui agora. A Patrícia tá aqui com o Rogério… e acabou de dizer que esse apartamento você prometeu pra ela como compensação por ter destruído a vida dela.
Fiquei olhando pro celular como se não tivesse entendido o idioma. Repeti o áudio. "Compensação por ter destruído a vida dela." Senti uma risada seca subir pela garganta, mas não chegou a sair. Isso era o mais cruel em gente como Patrícia: não bastava receber ajuda. Precisava transformar quem ajudou em culpada, pra poder ficar com tudo sem sentir vergonha.
Peguei a bolsa, desci e chamei um táxi. No caminho, Rogério me ligou sete vezes. Não atendi. Vieram as mensagens: "Juliana, não complica isso." "A Patrícia tá muito nervosa." "Sua tia pode estar entendendo tudo errado." "Vem com calma."
Com calma. Me pedia calma o homem que não teve calma pra me escutar durante três anos.
Quando cheguei ao prédio da minha tia, vi Fábio na portaria, conversando com o porteiro. Ao me ver, parou a conversa na metade.
— Juliana.
— Agora não dá, Fábio.
— Eu sei — disse. — Sua tia me ligou. Eu sou quem quer alugar o apartamento. Meu escritório de arquitetura tá crescendo, preciso hospedar dois estagiários que vêm de Florianópolis pra um projeto.
A ironia quase me fez fechar os olhos. Patrícia tinha vivido um ano inteiro graças a um favor meu, pagando menos da metade do preço de mercado. E agora tentava tomar o apartamento justo quando outra pessoa estava disposta a pagar o valor justo.
— Subo com você — disse Fábio.
— Não precisa.
— Não vou falar por você. Só vou estar presente.
Aquela frase me atingiu de um jeito que eu não esperava. Rogério sempre falava por mim pra me corrigir. Fábio só queria estar ali.
Subimos. A porta do apartamento da minha tia estava aberta. Dentro, Patrícia chorava sentada no sofá, uma mão no peito. Rogério em pé ao lado dela, rígido, desconfortável, mas ainda protegendo-a com o corpo. Minha tia Rosângela, óculos na ponta do nariz, segurava uma pasta de documentos.
Assim que entrei, Patrícia se levantou.
— Juliana, por favor, não faz isso comigo. Eu tenho um filho.
— Também tinha quando eu te encontrei no jardim — respondi. — E naquela hora não me importei de ajudar.
Patrícia baixou os olhos, mas logo recuperou a atuação.
— Eu nunca te pedi pra entrar na minha vida. Você que fez isso. Você que disse que eu podia contar com você.
— Contar comigo não significava contar com o meu marido.
Rogério deu um passo à frente.
— Não mistura isso aqui.
— Sério? Agora você quer separar os assuntos? Durante três anos você não soube separar a minha casa da dela.
Patrícia começou a chorar mais alto.
— Eu nunca fiz nada de errado. O Rogério só me ajudava. Se a Juliana tem insegurança, a culpa não é minha.
Minha tia soltou uma risada amarga.
— Menina, eu tenho sessenta e oito anos, não sou boba. — Colocou a pasta sobre a mesa. — Esse é o seu contrato. Aluguel temporário de doze meses, renovável só se as duas partes concordarem. Não tem promessa de venda. Não tem compensação. Não tem direito de ficar.
Patrícia empalideceu.
— Mas a Juliana me disse…
— A Juliana me pediu pra baixar seu aluguel — a tia cortou. — Me disse que você tava sozinha, que seu filho precisava de estabilidade, que você merecia recomeçar. Por causa dela você perdeu a vergonha, menina. Não por sua causa.
Rogério me olhou, como quem começa a entender uma peça que faltava.
— Foi… você quem conseguiu o apartamento pra ela?
Não respondi. Não precisava. Durante meses, ele tinha apresentado Patrícia como uma mulher que lutava sozinha contra o mundo. Nunca perguntou quem tinha aberto a porta pra ela não dormir na rua.
Patrícia apertou os lábios.
— Isso não muda nada. O Rogério me prometeu que ia falar com você. Disse que você não ia me deixar na mão.
Olhei pra Rogério.
— Você prometeu minha ajuda pra ela?
Ele fechou os olhos um segundo.
— Eu só tentava deixar ela tranquila.
— Você sempre tenta deixar ela tranquila. Pra mim você sempre chamava de exagero.
— Juliana…
— Não. Agora você vai escutar.
Tirei o celular da bolsa e abri nossa conversa. Passei mensagem por mensagem. O dia da minha amigdalite. O dia do meu aniversário. O dia do chuveiro. O dia da encomenda de tecido. O dia em que ele tinha escrito: "Tô com a Patrícia, para de ser chata."
— Durante três anos te pedi limite. Não pedi crueldade. Não pedi que você ignorasse uma mulher com dificuldade. Pedi pra você não transformar o nosso casamento numa sala de espera enquanto você brincava de herói na casa da vizinha.
Rogério engoliu seco.
— Eu não amo ela.
Patrícia virou a cabeça pra ele, machucada de verdade.
— O quê?
Ali apareceu a fenda. E por essa fenda saiu tudo.
— Rogério — disse Patrícia, a voz tremendo. — Você me disse que a Juliana era fria. Que você já não tava bem com ela. Que só continuava porque vocês deviam muito um ao outro.
Senti o golpe, mas não me movi. Rogério negou.
— Eu não falei assim.
— Você falou — ela insistiu. — Falou que com eu você se sentia necessário.
Minha tia me olhou com pena. Fábio ficou parado junto à porta, calado, sem invadir meu espaço. E foi aí que entendi a verdade completa: Rogério não tinha caído numa armadilha. Ele tinha escolhido um cenário onde sempre podia se sentir bom. Comigo havia conta de luz, boleto do ateliê, rotina, cansaço. Com Patrícia ele era o salvador. O homem forte. O indispensável. E eu, que tinha sido sua companheira havia nove anos — três de namoro, seis de casada —, tinha me tornado o espelho onde ele via a própria mediocridade.
— Obrigada, Patrícia — eu disse.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
— Porque você acabou de dizer em voz alta o que ele escondia há anos.
Rogério deu um passo na minha direção.
— Juliana, por favor. Eu me confundi. Mas a gente tem história. Nove anos não se jogam fora assim.
Pensei nele correndo três quilômetros atrás de mim quando caí de bicicleta na Vila Izabel. Pensei naquele fim de ano em Campos do Jordão, quando o carro quebrou na estrada da serra no frio de seis graus e ele me cobriu com o próprio casaco até quase passar mal de hipotermia. Pensei nas minhas mãos tremendo de medo, em como chorei quando ele abriu os olhos de novo no hospital. Sim. Tínhamos história. Mas história não é sentença de prisão perpétua.
— Não tô jogando nada fora — respondi. — Tô deixando onde pertence. No passado.
Rogério ficou imóvel. Patrícia voltou a falar, desesperada:
— E o meu filho? O que vai acontecer com o meu filho?
Minha tia respirou fundo.
— Seu filho merece uma mãe que não use pena como contrato. Você tem trinta dias pra sair. Nem um a mais.
Patrícia me olhou com ódio.
— Você é cruel.
Não respondi.
Duas semanas depois, Patrícia deixou o 402. Não foi em silêncio. Chorou na portaria, ligou pra Rogério, falou mal de mim pra duas vizinhas, disse que eu tinha expulsado ela por ciúme. Mas quando o porteiro mostrou as imagens das câmeras do último ano — Rogério entrando no apartamento dela de noite, Rogério descendo duas da manhã, Rogério carregando sacola, caixa, ferramenta, comida — muita boca se fechou. Não era prova de traição consumada. Era prova de abandono. E às vezes isso basta.
Rogério apareceu na porta do meu ateliê numa tarde de chuva. Estava mais magro. Usava a mesma jaqueta que Patrícia devolveu amassada, dentro de um saco de lixo.
— Não tô com ela — disse, como se isso resolvesse algo. — Foi morar com uma prima em Araucária. Me bloqueou quando entendeu que eu não ia pagar aluguel pra ela.
Quase senti pena. Quase.
— Não era amor por ela — ele continuou. — Era… não sei. Me fazia sentir útil.
— Eu também precisava de você.
— Você parecia dar conta de tudo.
— Eu pedia apoio, Rogério. Não troféu nenhum. Só precisava que você me escutasse igual escutava ela.
Ele baixou a cabeça.
— A gente pode recomeçar?
A chuva batia na marquise do ateliê. Dentro, minhas costureiras riam em volta de um molde de vestido. Fábio revisava uma planta na mesa grande, perto da janela. Ao me ver de longe, não se aproximou. Só olhou, caso eu precisasse de alguma coisa. Essa diferença me disse tudo.
— Não — respondi. — Não quero recomeçar com alguém que só me valoriza quando me perde.
Rogério abriu a boca, mas não achou palavra. Eu também não acrescentei nada.
Naquela mesma noite, na casa da tia Rosângela, finalmente fiz o teste de gravidez. Fiquei cinco minutos sentada na beirada da banheira, olhando pro plástico branco. Uma linha. Negativo. Chorei. Não sei se de alívio, de luto ou de cansaço. Talvez de tudo junto.
Minha tia bateu de leve na porta.
— Juliana?
— Tô bem.
E pela primeira vez em meses, era verdade.
Passaram três meses. Fábio alugou o 402 pra sua equipe. Não tentou ocupar o lugar do Rogério nem me curar com palavra bonita. Às vezes deixava café na recepção do ateliê. Às vezes mandava referência de tecido importado. Às vezes, quando a gente se encontrava no elevador, falava de quando éramos crianças e corríamos nas festas de São João de Ponta Grossa com o joelho sujo de terra.
Numa noite, saindo tarde do ateliê, encontrei ele esperando na portaria com um guarda-chuva.
— Não vim te salvar — disse. — Só tá chovendo muito.
Ri, peguei o guarda-chuva pela haste de madeira e dividi o cabo com ele. Saímos os dois na chuva, cada um com uma mão firmando a estrutura, atravessando a rua até a esquina onde os táxis paravam.
Meses depois, quando terminei a coleção mais importante do meu ateliê, minha tia me abraçou e disse:
— Te vejo diferente.
— Não diferente — respondi. — Me vejo de novo.










