A moça de vestido vermelho ainda segurava o braço dele quando a mulher atravessou o saguão. Diego sentiu a mão da acompanhante apertar, depois soltar, como se o corpo dela já soubesse antes da cabeça.
Vou contar como foi, porque eu estava lá, do lado de dentro do balcão, com o crachá de recepcionista-chefe do Hotel Búzios Imperial pendurado no colete. Trabalho nesse hotel há nove anos e já vi gente brigando por reserva trocada, já vi casal cancelando lua de mel no check-in. Mas aquilo foi diferente.
Era uma sexta de outubro, aquele feriado prolongado de Nossa Senhora Aparecida, lobby lotado, cheiro de jasmim do arranjo novo que a governanta tinha colocado na mesa central. Diego Ferraz entrou por volta das nove da noite, blazer linho, relógio que eu reconheci na hora — um Omega que ele tinha mostrado pra gente semanas antes, contando que ganhou de aniversário de casamento. A moça ao lado dele, bem mais nova, ria baixinho de alguma piada que ele tinha acabado de fazer.
Ele chegou no balcão, pediu a suíte master com vista pro mar, nome na reserva: "Ferraz, duas pessoas." Eu não falei nada, não é da minha conta quem reserva o quê. Comecei a digitar o check-in, perguntei documento, ele tirou a carteira. E foi nesse instante — exatamente nesse instante, com a mão dele ainda dentro do bolso do blazer — que o saguão inteiro virou de cabeça.
Valéria Ferraz entrou pela porta giratória de vestido longo azul-marinho, os brincos balançando luz dos lustres de cristal. Eu já tinha hospedado ela antes, em outra viagem, sozinha, numa diária de aniversário dela mesma. Reconheci o andar dela antes do rosto — ereto, sem pressa, o tipo de passo que não precisa de plateia pra ter presença, mas naquele saguão lotado, teve plateia inteira.
Ela parou a um metro e meio do casal e disse, baixo mas claro o bastante pra quem estava por perto ouvir:
— Boa noite. Eu sou a esposa dele.
Não gritou. Não chorou. Isso que ficou gravado em mim até hoje — a voz dela não tremeu nem um pouco.
Diego ficou com a carteira ainda meio aberta na mão, a identidade pendurada pra fora. A moça do vestido vermelho — descobri depois que se chamava Juliana, trabalhava com ele na construtora — deu dois passos pra trás, batendo contra o balcão, derrubando um folheto de spa que eu tive que catar depois.
— Valéria, deixa eu explicar — ele começou, e a voz dele saiu fina, nada parecida com o tom de quem reclama de quarto sem minibar.
Ela não respondeu na hora. Só olhou pra mim, por cima do ombro dele, com uma calma que eu nunca vi em cliente nenhum, e falou:
— Pode cancelar a reserva dele. Fica a suíte 412 no meu nome, só.
Eu olhei pro gerente, que tinha vindo correndo do escritório atrás da baia. Ele deu de ombros, discreto, como quem diz "atende a senhora". Foi o que fiz. Cliente antiga, cliente que não gritou, cliente que pagou. Não tinha protocolo pra isso, mas também não precisava de muito protocolo: ela só pediu uma reserva no nome dela.
Diego tentou segurar o braço dela. Ela afastou a mão dele com um gesto tão suave que quase não dava pra chamar de gesto — só um desvio de ombro, nada mais.
— A gente conversa amanhã, com o Doutor Ricardo — ela disse, e aquele nome, "Doutor Ricardo", fez Diego empalidecer mais do que o vestido de Valéria tinha feito até então. Fiquei sabendo depois, pelos boatos do próprio salão de eventos do hotel — porque sim, essas coisas circulam entre funcionários — que Ricardo Bastos era o advogado que cuidava do inventário da família Ferraz desde que o pai de Diego morreu, dois anos antes, deixando pra ele a metade de uma rede de três postos de gasolina na Região dos Lagos. A outra metade era de Valéria, por causa do regime de bens do casamento — comunhão parcial, catorze anos de união.
Juliana, a moça do vestido vermelho, já tinha saído andando rápido na direção da porta giratória, sem nem pegar o casaco que tinha deixado pendurado na poltrona do saguão. Ninguém foi atrás dela. Aquilo também ficou na minha cabeça: o jeito como ela simplesmente desapareceu, como se soubesse que não tinha mais nada ali pra ela.
Diego ficou parado, sozinho, no meio do saguão, com a reserva cancelada na minha tela e o relógio Omega brilhando feito zombaria no pulso dele.
Isso foi sexta. Na segunda-feira, eu soube o resto porque o próprio Doutor Ricardo veio hospedar um cliente no hotel — coincidência, dessas que só acontecem em cidade pequena como Búzios — e comentou com o gerente, que comentou comigo, porque eu tinha testemunhado o início de tudo.
Valéria tinha ido direto do hotel pro escritório do advogado, na mesma noite, e esperado ele abrir pela manhã. Levou uma pasta com três documentos: o contrato social dos postos de gasolina, o extrato da conta conjunta do casal e uma procuração que Diego tinha assinado dois anos antes, achando que era só burocracia de inventário, dando a Valéria poder de gerência sobre a parte dele na empresa "em caso de afastamento operacional".
Afastamento operacional. Foi a cláusula que ela usou. Porque, segundo o Doutor Ricardo, nos últimos oito meses Diego vinha deixando de aparecer nos postos, repassando a administração pra um gerente de confiança e gastando o tempo — e o dinheiro da empresa, via cartão corporativo — em viagens como aquela, pro Búzios Imperial, com Juliana.
Valéria tinha as notas fiscais. Treze diárias de hotel, cento e oitenta e sete mil reais em jantares, joias e aquele mesmo Omega, tudo pago pelo cartão da empresa nos últimos oito meses. Com a procuração em mãos, ela assinou a transferência da gerência operacional dos três postos pra si mesma, segunda de manhã, antes mesmo de Diego acordar de ressaca na casa da mãe, onde tinha ido dormir porque ela trocou a fechadura do apartamento no sábado.
Ele descobriu a fechadura primeiro. Ligou pro Doutor Ricardo berrando que ia processar todo mundo. O advogado, calmo, leu pra ele o parágrafo da procuração que ele mesmo tinha assinado. Diego não tinha argumento — tinha assinado, tinha gastado, tinha sido visto.
Na quarta-feira, ele apareceu no posto da Avenida José Bento Ribeiro Dantas, o maior dos três, pra tentar entrar no escritório administrativo. O gerente de confiança dele, que até então respondia pelas ordens de Diego, barrou a entrada na porta — porque o nome autorizado no sistema da franquia já não era mais o dele, e sim o de Valéria.
Diego ficou do lado de fora, batendo no vidro, enquanto dentro, Valéria conferia a planilha de faturamento com uma calculadora e uma xícara de café, sem nem levantar o olhar pra porta.
Ela não processou ele por nada além disso. Não precisou. Ficou com os três postos sob sua gerência, cento e oitenta e sete mil reais documentados como base pra uma eventual partilha revista, e um apartamento com fechadura nova, na Rua das Pedras, que ela pagou integralmente sozinha nos primeiros meses de casamento e que, pelo contrato, era só dela mesmo.
Eu, no balcão do Búzios Imperial, só fiquei sabendo o final da história porque o Doutor Ricardo, feliz da vida, comentou tomando um suco de caju no nosso bar: "Ela nunca levantou a voz uma vez sequer." E é isso que eu lembro também — nenhum grito, nenhuma cena. Só uma mulher de vestido azul-marinho pedindo pra trocar o nome de uma reserva, e um homem que saiu do nosso hotel sozinho, sem bagagem, sem relógio — porque soube depois que ela vendeu o Omega pra cobrir parte das diárias que ele tinha gastado em nome da empresa.












