Vera Monteiro chegou à Joalheria Cristal, no Shopping Iguatemi, às cinco e dez da tarde, usando um terninho branco e sapatos baixos. Nada nela gritava dinheiro. Era assim que gostava: sem anel, sem bolsa de grife, só o relógio simples que usava desde os tempos de balconista, vinte e dois anos atrás, quando varria o chão daquela mesma loja antes de comprá-la.
Ela tinha ido ver pessoalmente a nova coleção de joias que chegaria de Belo Horizonte para o lançamento de dezembro. Entrou pela porta de vidro, passou pelos balcões reluzentes com colares e anéis de ouro, e parou diante de uma vitrine de brincos de esmeralda, avaliando cada peça com a atenção de quem negociou pessoalmente o preço com o fornecedor.
Foi quando Patrícia Azevedo entrou, num vestido vinho com bordado dourado, salto alto batendo no piso como quem quer que todo mundo ouça. Vinha acompanhada de um homem de terno escuro — Ricardo, seu namorado novo, dono de uma rede de concessionárias em Curitiba, que ela estava levando ali justamente para impressionar com joias caras. Patrícia reconheceu Vera de longe e não resistiu. As duas tinham trabalhado juntas seis anos antes, ali mesmo na Cristal, quando Vera já era a proprietária e Patrícia uma simples vendedora do balcão de alianças. Patrícia nunca escondeu o desprezo que sentia pela antiga chefe "pobretona", que, segundo ela, só tinha "dado sorte".
— Você aqui? — disparou, parando ao lado de Vera com a boca torcida num gesto de triunfo. — Esse lugar não é pra gente como você, sabia?
Ricardo franziu a testa, incomodado com o tom.
— Você conhece ela? — perguntou baixinho.
— Conheço — respondeu Patrícia, dando de ombros, deliciando-se com a própria mentira. — Trabalhei com ela, mas ela nunca saiu da miséria. Vendedora de loja de bairro até hoje, imagino.
Vera não disse nada. Ficou ali, com as duas mãos apoiadas na borda da vitrine, os dedos tamborilando de leve no vidro, sem baixar os olhos e sem dar um passo atrás.
Foi então que Fernando, o gerente da loja, saiu correndo da sala dos fundos, ajustando a gravata, e passou direto por Patrícia e Ricardo como se eles fossem parte do mobiliário. Foi até Vera e fez uma reverência rápida, visivelmente nervoso.
— Dona Vera, desculpe a demora, eu não sabia que a senhora tinha chegado. Já separei a coleção particular lá na sala VIP, como a senhora pediu por telefone.
Patrícia travou no lugar. Olhou para Fernando, depois para Vera, tentando entender, e o sangue sumiu do seu rosto. Ricardo deu um passo para trás, cruzando os braços, reavaliando tudo o que a namorada tinha dito nos últimos vinte minutos.
— Dona… Vera? — repetiu Patrícia, a voz falhando.
— Vera Monteiro — disse Fernando, sem entender por que precisava explicar aquilo. — A proprietária da Cristal. E das outras três lojas da rede.
Patrícia riu, um riso fino e nervoso, tentando consertar o que já não tinha conserto.
— Ah, deve ser brincadeira, isso não pode ser a mesma Vera que…
— Que trabalhou dobrado durante nove anos pra juntar capital — completou Vera, finalmente falando, num tom tranquilo, sem rancor nenhum na voz. — Enquanto você me chamava de pobretona no intervalo do almoço, Patrícia. Lembra? Eu fazia hora extra no caixa pra fechar o estoque enquanto você ia embora às seis em ponto.
Ricardo olhou para o relógio, depois para a porta, visivelmente calculando quanto tempo faltava para aquele encontro acabar.
Vera se virou para Fernando.
— Pode me mostrar a coleção. E separe também os brincos de esmeralda da vitrine três, quero reservá-los para o catálogo de dezembro.
Enquanto caminhava para a sala VIP, parou um segundo, voltando-se para Patrícia, que continuava parada, sem saber se devia ir embora ou esperar um pedido de desculpas que não ia vir.
— Fernando — disse Vera, sem se virar completamente —, pode cancelar o desconto de funcionária que a Patrícia ainda tem cadastrado no sistema. Ela usava quando trabalhava aqui, há seis anos. Não faz mais sentido manter.
Fernando confirmou com a cabeça, anotando no tablet. Patrícia abriu a boca para protestar, mas não saiu som nenhum. Aquele desconto de quinze por cento, que ela usava escondida até hoje, comprando presentes para se exibir com Ricardo, tinha acabado de sumir na tela do sistema, na frente dele.
Ricardo pegou a chave do carro no bolso.
— Acho melhor eu ir indo — falou, sem esperar resposta, e saiu pela porta de vidro antes mesmo que Patrícia pudesse alcançá-lo.
Vera entrou na sala VIP e fechou a porta atrás de si, deixando Patrícia sozinha no meio do salão, debaixo das luzes que faziam brilhar tudo, menos ela.










