O violão de Irineu no casamento dos Castelo Branco

Ninguém imaginava que uma festa de casamento em Gramado, com buffet francês e motorista particular para os padrinhos, terminaria com um homem de terno engomado ajoelhado no salão de festas, diante de um violão em pedaços.

Mas antes disso, era preciso entender quem era Irineu.

Irineu Tavares tinha trinta e dois anos e tocava violão há vinte e dois deles. Morava num apartamento de fundos em Canoas, pagava trezentos e oitenta reais de aluguel e sobrevivia de festas, batizados e, de vez em quando, um casamento grande o bastante para pagar o mês inteiro. Naquela noite de sábado, tinha sido chamado para tocar na recepção do casamento de Larissa Castelo Branco, filha de uma família que fazia fortuna com uma rede de concessionárias de carros no interior do Rio Grande do Sul. O cachê prometido: dois mil e quatrocentos reais. Para Irineu, era quase dois meses de aluguel de uma só noite.

Ele chegou uma hora antes, como sempre fazia, para afinar o instrumento com calma. Aquele violão não era um violão qualquer. Tinha sido do seu pai, Osvaldo, que o comprara em 1991 numa loja de instrumentos que já nem existia mais, e que morrera quando Irineu tinha dezenove anos, deixando para o filho só aquilo e um casaco de couro gasto. Irineu cuidava do instrumento como quem cuida de uma pessoa doente: forrava o estojo com um pano de microfibra, trocava as cordas antes de cada apresentação importante, nunca deixava no porta-malas do carro.

Quando Ademar Castelo Branco, dono da rede de concessionárias e pai da noiva, passou por ele no corredor de entrada para checar as mesas, parou um segundo de mais na frente do estojo aberto.

— Esse teu violão é antigo, né? — perguntou, sem parar de andar.

— Foi do meu pai, seu Ademar. — respondeu Irineu, já acostumado a repetir aquilo todo ano em que era contratado.

— Já imaginava. — disse Ademar, e seguiu andando, com uma cara que Irineu não soube interpretar.

A festa corria bem até o fim do jantar. Dona Zuleide Castelo Branco já estava na quarta taça de espumante, o cetim dourado do vestido amassado nas costas de tanto se sentar e levantar para fotos, quando o irmão dela, bêbado também, resolveu brincar em voz alta, lá da mesa dos padrinhos:

— Zuleide, cadê aquele cartão que você jurou que ia parar de usar? Já gastou tudo com decoração, hein?

Risos na mesa. Dona Zuleide fechou a cara, bebeu de um gole só o resto da taça e levantou, visivelmente incomodada, procurando algo em que descarregar a humilhação. Foi então que avistou Irineu tocando baixinho uma valsa perto da escada de mármore — a mesma valsa que o DJ devia ter tocado na entrada dos padrinhos, segundo o roteiro que ela mesma tinha escrito à mão, três vezes revisado, e que agora, na sua cabeça embaçada pelo espumante, parecia ser a prova de que ninguém naquela festa respeitava uma única ordem que ela dava.

Ela atravessou o salão, taça ainda na mão, e parou na frente dele.

— Essa não era a música da entrada. Eu escrevi isso no papel. Você não sabe ler?

— Dona Zuleide, essa é outra função, o DJ que toca a entrada, eu só…

Ela não deixou ele terminar. Com a mão livre, arrancou o violão do colo dele — um movimento tão rápido que Irineu só sentiu o peso saindo das pernas.

— Dona Zuleide, por favor, esse instrumento é…

Ela já tinha erguido o violão com as duas mãos.

O som do impacto contra o corrimão de mármore foi seco e múltiplo: madeira rachando, cordas estourando uma depois da outra, como estalos de rebenque. Um pedaço do tampo voou até a toalha da mesa de doces e derrubou dois brigadeiros no chão. A valsa morreu no meio de um acorde. Duzentas e poucas pessoas calaram por um segundo — e então vieram os "ai, meu Deus baixinhos", um riso nervoso lá no fundo, perto do bar.

Larissa, a noiva, estava a poucos metros. Ergueu o celular e começou a filmar, o canto da boca puxado para o lado.

— Sai daqui, rapaz. Ninguém quer músico de quinta estragando esse casamento.

Irineu não respondeu. Agachou junto aos cacos, catou um pedaço do tampo com a marca de queimadura de cigarro que o próprio Osvaldo tinha deixado ali, sem querer, décadas antes, e ficou com ele na palma da mão, os dedos tremendo de um jeito que ele mesmo não conseguia controlar. Respirava rápido, pelo nariz, como quem tenta não deixar o ar sair em soluço. Alguns convidados desviaram o olhar. Outros continuaram filmando, por reflexo, sem saber bem por quê.

Foi nesse instante que as portas duplas do salão se abriram com força.

Ademar atravessou o salão quase correndo, driblando garçons e seguranças que mal tiveram tempo de reagir. Não foi até a filha. Não foi até a esposa, que ainda segurava a taça vazia, meio surpresa com o próprio gesto. Ele foi direto até Irineu e, diante de duzentas pessoas, dobrou os joelhos no chão de mármore ao lado do violão destruído.

O salão inteiro gelou.

Ademar pegou o pedaço de tampo que Irineu segurava, virou o caco na mão, achou com o dedo a marca de queimadura e parou. Ficou olhando aquilo por tempo demais para quem só estava examinando madeira.

— Isso aqui era do Osvaldo.

— O senhor conhecia meu pai?

— Essa marca de cigarro foi ele que fez. Lembro do dia. Ele tinha acabado de comprar o violão e estava tão nervoso de empolgação que deixou o cigarro queimar o tampo enquanto mostrava pra mim o primeiro acorde que sabia tocar. — Ademar passou o polegar na marca, de novo e de novo. — Em 1988, numa oficina mecânica em Novo Hamburgo. Eu tinha vinte e dois anos, tinha acabado de sair de casa, não tinha onde dormir. Seu pai me deu um colchão no fundo da oficina por seis meses, sem cobrar nada, e nos domingos pegava esse violão e me ensinava. Economizou quatro meses de salário pra comprar esse instrumento. Eu vi ele contando as notas em cima da bancada pra ver se já dava.

Ademar ficou de pé devagar, o pedaço de madeira ainda na mão.

— Zuleide.

Ela abriu a boca, mas não saiu nada.

— Sabe o que você quebrou agora? Não foi um violão. Você já tinha sentado nesse salão, ano passado, com esse homem tocando a dez metros de você, e nunca perguntou o nome dele.

— Ademar, eu bebi, eu não…

— Cancela o salão B de sexta-feira. — ele cortou, virando-se para o gerente do bufê, que observava tudo paralisado perto do bar. — E me manda a nota de tudo que foi gasto hoje. — Voltou-se para Irineu. — Vou pagar em dobro pra você tocar de novo, se quiser, num evento meu, sozinho, com o cachê que cobrar.

Depois se abaixou outra vez, na altura de Irineu.

— Me dá uma semana. Conheço um luteiro em Caxias do Sul que trabalha com instrumento antigo a vida inteira. Se tiver um jeito de salvar esse tampo, de aproveitar qualquer parte que ainda tenha a marca do seu pai, ele vai saber.

Irineu olhou o pedaço de madeira na mão de Ademar, depois para o homem ajoelhado ao seu lado, e só conseguiu fazer que sim com a cabeça, a garganta fechada demais para qualquer palavra.

Na segunda-feira seguinte, Ademar foi pessoalmente buscar Irineu no apartamento de Canoas, no próprio carro, sem motorista. Levaram os pedaços do violão até a oficina do luteiro Vicente Hoffmann, em Caxias. Vicente examinou o tampo partido por quase uma hora, com uma lupa de joalheiro, antes de dizer que conseguia recuperar o braço original e parte da madeira do corpo — mas o instrumento nunca mais seria exatamente o mesmo.

— Não precisa ser o mesmo. — disse Irineu, olhando os cacos sobre a bancada. — Precisa só ter uma parte dele que ainda seja dele.

Três semanas depois, o violão restaurado — com um remendo visível na lateral, uma cicatriz de madeira mais clara que o resto, e a marca de queimadura preservada de propósito, intacta — voltou para as mãos de Irineu. Ademar pagou a restauração inteira, oito mil e duzentos reais, sem deixar Irineu nem ver a conta.

Quanto a Dona Zuleide, a mudança chegou sem aviso, três dias depois. Ela tentou passar o cartão corporativo da concessionária numa loja de decoração em Porto Alegre e a máquina recusou. Ligou para o gerente financeiro da empresa, achando que era erro de sistema. Ele, encabulado, explicou que recebera instrução direta de Ademar para retirar o nome dela de qualquer movimentação da família — cargo que ela ocupava havia nove anos, mais de fachada do que de fato. Ela desligou o telefone sem dizer nada, ficou parada no meio da loja com o cartão ainda na mão, e nunca comentou o assunto com ninguém.

No aniversário de um ano de casamento de Larissa, Irineu foi convidado de novo. Tocou a mesma valsa que tinha sido interrompida naquela noite, até o fim, sem que ninguém o interrompesse. Quando terminou, foi Ademar quem aplaudiu primeiro, de pé, sozinho, por um segundo inteiro, antes que o resto do salão, enfim, o acompanhasse.

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