O botão da camisa de Rafael

A reserva no restaurante Villa Toscana, em Curitiba, já estava marcada há semanas: o aniversário de casamento dos meus pais, trinta e dois anos. Minha mãe, Beatriz, usava o vestido verde-oliva que só saía do armário em ocasiões especiais. Meu pai, Nilson, parecia calmo demais para quem só ia comemorar uma data.

Eu me chamo Carolina. Na minha frente, minha irmã Juliana sorria com um sorriso que não chegava aos olhos. Ao lado dela, meu marido Rafael — supostamente ali só para ajudar meu pai a escolher o vinho — tinha puxado a cadeira mais para o lado dela do que para o meu.

Foi quando reparei no guardanapo. Papai tinha pedido, antes mesmo de pedirmos as entradas, que todos deixássemos os guardanapos à esquerda do prato. Estranhei, mas obedeci. Debaixo do meu havia um botão. Cinza-escuro, com um arranhãozinho na borda. Reconheci na hora: era igual ao que faltava na camisa social do Rafael, desde aquela noite, um mês antes, em que ele chegou em casa quase meia-noite dizendo que tinha ficado resolvendo um problema com um fornecedor.

— Pai, o que é isso? — perguntei, baixinho.

Ele não me olhou de imediato. Ajeitou o garfo, como quem ganha tempo.

— Às vezes a gente precisa colocar a verdade na mesa antes que alguém a venda por aí — disse.

Juliana riu, seca:

— Que drama para um jantar de família.

Rafael estendeu a mão para o botão, mas eu fui mais rápida. Senti o ar da mesa mudar. Minha mãe apertou o copo de água com as duas mãos, os nós dos dedos brancos. Meu primo Diego, que nunca se metia em nada, parou de mastigar.

— Foi você que colocou isso aqui? — virei para o meu pai.

— Foi sua mãe quem achou — ele respondeu, sem desviar o olhar dela. — Eu só organizei o jantar.

Beatriz não negou. Continuou com os dedos presos no copo, como se precisasse daquele apoio para não derrubar a mesa inteira.

— Onde você achou? — perguntei a ela.

— No apartamento da Dona Marlene. Na Água Verde.

O silêncio que se fez foi tão denso que ouvi o garçom pousar um prato na mesa vizinha. Dona Marlene, mãe do Rafael, morava sozinha naquele apartamento antigo, herança do falecido marido. Rafael ia lá todo sábado, dizia, para levar remédio e fazer compra — e, segundo soube depois, também levava roupa para passar, porque a máquina dele andava quebrada.

Juliana ficou branca primeiro. Foi aí que entendi: o botão não era o pior.

— Por que um botão da minha camisa estaria lá? — Rafael tentou sorrir. — Devo ter deixado uma camisa velha guardada, de quando ainda morava com ela.

— Com o cheiro de perfume de mulher que não é o da sua mãe nem o meu? — Beatriz enfim soltou o copo. — Eu cheirei a camisa antes de tirar o botão, Rafael.

Mamãe apertou os lábios, como se tivesse dito mais do que queria.

— Para, Beatriz — minha irmã tentou.

Mas já era tarde. Juliana se levantou da cadeira.

— Eu não vou participar desse circo.

— Senta — disse meu pai, calmo. — Sua mãe ainda não terminou.

Ela se virou para ele, seca:

— Terminou o quê?

Meu pai tirou um envelope pardo pequeno do bolso interno do paletó e deixou ao lado do pão. Não abriu de imediato. Só empurrou na minha direção.

— Sua mãe recebeu isso há duas semanas, Carolina. Me mostrou ontem. Decidimos juntos trazer aqui, hoje, na frente de todo mundo.

Dentro havia uma cópia de uma petição protocolada no cartório, pedindo que a transferência do apartamento de herança — aquele que seria meu, documentado em nome do meu pai desde que a avó morreu — fosse suspensa, alegando que ele estava "mentalmente instável". A remetente era Juliana.

Senti como se tivessem me despido de toda a confiança, na frente do restaurante inteiro.

— Por quê? — perguntei para ela.

Juliana já não sorria.

— Porque sempre dão tudo pra você.

— O apartamento era pra nós duas — eu disse.

— Não — ela sibilou. — Você que ficava com tudo. Com a atenção deles. Com o Rafael.

As últimas palavras caíram entre a gente como um copo quebrando. Rafael fechou os olhos. Minha mãe tirou um lenço de papel da bolsa e começou a dobrá-lo em quadrados cada vez menores, sem levar aos olhos, só dobrando, até ficar do tamanho de um selo. Meu pai não se moveu. Só olhava os dois, como quem esperava que eles mesmos se entregassem.

— Há quanto tempo? — perguntei.

Juliana virou o rosto para a janela, de onde se via a avenida Batel iluminada. Rafael respondeu por ela:

— Não foi planejado.

Foi a frase mais idiota que já ouvi na vida.

Meu pai abriu a segunda folha do envelope. Não era a petição. Era a cópia de um contrato de aluguel de um apartamento pequeno, em Pinhais, assinado por Rafael. Fiadora: Juliana.

— Vida dupla não se chama erro — disse meu pai. — Se chama plano.

Juliana explodiu:

— Você não tem o direito de ficar bisbilhotando a nossa vida!

— Quem bisbilhotou foi sua mãe — ele respondeu. — Eu só tive a coragem de abrir o envelope.

Beatriz largou o lenço de papel amassado ao lado do prato.

— Eu vi os dois na porta do prédio da Dona Marlene — continuou, a voz presa na garganta. — Há dois meses. Ele deu uma chave pra ela. Fiquei ali parada, do outro lado da rua, feito boba, até eles entrarem. Depois ouvi os dois, de outra vez, falando sobre o apartamento do seu pai perto do elevador. Combinaram que primeiro iam fazer você parecer instável, Nilson, depois convenceriam a Carolina a assinar o divórcio sem pedir nada.

Rafael se levantou tão rápido que a cadeira bateu na parede.

— Isso é fofoca de família — disse.

Meu pai apontou para o botão na minha mão.

— Fofoca não vem com contrato de aluguel assinado, Rafael.

Eu não chorei. Não gritei. Só tirei a aliança e deixei ao lado do botão, na mesa.

— Fiquem com o romance de vocês — falei. — Eu vou ficar com a minha vida.

Na semana seguinte, sentei com minha advogada, Dra. Patrícia, na sala pequena do escritório dela na rua Comendador Araújo. Ela abriu a pasta, apontou o espaço reservado para a assinatura e disse:

— Com o laudo médico do seu pai e esse envelope como prova documental, a petição da sua irmã não tem chance. Assine aqui.

Assinei. Ela carimbou, guardou a via e me entregou a cópia.

Duas semanas depois, o cartório confirmou: a petição de Juliana foi arquivada. O apartamento da Água Verde — o nosso, de herança — ficou garantido no meu nome, com firma reconhecida e tudo registrado.

Rafael tentou voltar depois de um mês. Juliana parou de pagar o aluguel do apartamento em Pinhais quando entendeu que não ia herdar nada. Ele apareceu no portão do meu prédio novo, na Vila Izabel. Tocou o interfone duas vezes. Eu vi pela câmera, sentada no sofá, com a pasta do divórcio ainda aberta sobre a mesa de centro. Não atendi.

Hoje o botão cinza, com o arranhão na borda, está guardado numa caixinha de madeira na minha estante. Fechei a tampa e nem olhei mais uma vez.

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