Sofia e os 19 dias em Caxambu

Sofia Andrade tem trinta e quatro anos, trabalha com contabilidade numa clínica veterinária em Juiz de Fora e, há dezenove dias, dorme numa cadeira reclinável ao lado da cama da mãe, dona Terezinha, no quarto de hóspedes da casa dela em Caxambu.

A mãe teve um derrame. Nada que a deixasse paralisada, mas o suficiente para não conseguir subir escada sozinha, nem cortar a própria comida, nem lembrar onde guardou o controle remoto cinco minutos depois de usá-lo. Sofia pegou licença não remunerada do trabalho — a clínica foi compreensiva, mas o salário não entra — e se instalou na casa da infância pra cuidar dela.

Todo santo dia, às oito da noite, ela liga pro marido.

— Rafael, como você tá?

— Com saudade, Sofi. Essa casa sem você é um breu.

Dezenove dias ouvindo isso. Dezenove dias acreditando.

Na manhã do dia vinte, dona Terezinha teve uma melhora que surpreendeu até o médico — andou até o banheiro sem apoio, comeu um pão de queijo inteiro, reclamou da novela com a clareza de sempre. Sofia aproveitou a brecha: pegou o carro, fez as quatro horas de estrada até Juiz de Fora sem avisar nada, parou numa padaria da Rua Halfeld e comprou aquele bolo de doce de leite que o marido tanto gosta. Queria chegar, tocar a campainha, ver a cara dele de surpresa.

A chave girou na fechadura sem barulho. E foi exatamente a ausência de barulho que a deixou em alerta — a casa estava quieta de um jeito que não era o normal. Perto da porta, um par de sandálias de tiras finas que ela nunca tinha visto. No ar, um perfume adocicado, floral, estranho. No cabideiro da entrada, um casaco de malha rosa-claro que definitivamente não era seu.

Sofia atravessou a sala com os passos mais leves que conseguiu dar, o bolo ainda na mão, o coração batendo tão forte que ela quase sentia o som na garganta. Chegou na porta do quarto. Girou a maçaneta de mansinho. Empurrou.

Rafael dormia abraçado com uma mulher mais jovem, os dois nus sob o lençol que ela mesma tinha comprado numa promoção da Riachuelo. Nenhum dos dois acordou.

Ela ficou ali parada, uns dez segundos, olhando. Depois fechou a porta sem fazer ruído e foi até a área de serviço, onde tinha um balde com água suja — tinha lavado o quintal antes de viajar pra Caxambu e esquecido de esvaziar. Pegou o balde com as duas mãos, voltou pro quarto e, sem dizer uma palavra, virou tudo em cima da cama.

— QUE MERDA É ESSA?! — Rafael pulou da cama, empapado, tossindo. A mulher gritou, tentou se cobrir com o travesseiro, procurava as roupas no escuro do desespero.

— Você tá louca, Sofia?!

— Quem é essa mulher dentro da nossa cama, Rafael?

Ele não respondeu. A amante, essa sim, se atrapalhou toda tentando explicar que "não era nada", que "tinha acabado de conhecer ele", enquanto vestia a calça jeans do lado errado pra fora.

Sofia não gritou de volta. Não chorou, não quebrou nada. Só ficou parada na porta do quarto, olhando os dois escorrendo água suja no carpete, com uma calma que assustou mais que qualquer grito teria assustado.

— Se vistam e saiam da minha casa. Os dois.

A amante saiu correndo descalça, as sandálias esquecidas perto da porta. Rafael ficou, tentando argumentar, dizendo que tinha sido "só uma vez", que "a solidão tinha pesado", que ele "amava ela de verdade, a Sofia, não aquela outra".

Sofia não discutiu. Foi até o escritório, abriu a gaveta de baixo do armário de aço e tirou uma pasta azul — a mesma onde guardava, desde o casamento, uma cópia de tudo: a escritura do apartamento, que estava só no nome dela, herdado da avó; o contrato do salão de beleza que ela tinha financiado com as economias pra Rafael abrir, três anos antes, e que estava registrado em nome dos dois; e o extrato da conta-poupança conjunta, que mostrava um saldo de vinte e três mil reais.

— Amanhã de manhã eu vou com essa pasta no cartório, Rafael. Vou tirar seu nome do contrato social do salão. A loja fica comigo, porque o dinheiro que abriu ela saiu da venda do terreno da minha avó, e eu tenho o recibo de cada centavo. E essa conta poupança, eu vou fechar hoje mesmo — ela já tinha o aplicativo do banco aberto no celular, o saldo bem visível na tela. — Você fica com a sua roupa, o seu carro, que também está financiado no seu CPF, e com essa história pra contar pra próxima.

— Sofia, pelo amor de Deus, vamos conversar…

— Eu já conversei. Foram dezenove dias de "com saudade, Sofi". Acabou a conversa.

Ela trocou a fechadura da porta na mesma tarde — chamou um chaveiro da vizinhança, pagou cento e oitenta reais, ficou sentada na escada enquanto ele trabalhava, vendo Rafael do outro lado da rua, sem conseguir entrar, batendo no celular dela que ela nem olhava mais.

Na segunda-feira seguinte, Sofia foi ao cartório da Avenida Rio Branco e fez a alteração contratual do salão de beleza, retirando o nome do marido do quadro societário. O gerente do banco confirmou o encerramento da conta conjunta na sexta anterior. Rafael ficou sabendo pelo contador do salão, que ligou pra avisar que o pró-labore dele tinha parado de cair.

Ele ainda manda mensagem, de vez em quando. Sofia não costuma responder. Voltou pra Caxambu no fim de semana, pra continuar cuidando da dona Terezinha, que já estava caminhando até o quintal sem bengala, reclamando que o bolo de doce de leite que a filha trouxe tinha ficado esquecido dentro do carro e virado uma pasta mole de calor.

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