Um gato deixou uma folha na porta por 142 noites

Começou numa quinta-feira de junho. Eu vinha andando pelo corredor saindo da sala de enfermagem, com a garrafa térmica na mão, e lá estava. Uma folha seca, marrom. Bem na frente da porta do quarto catorze. Chutei pro lado com o pé e pensei que o vento devia ter trazido pela porta da varanda, na sala de convivência. O pátio todo estava coberto de folhas secas. Junho em Campos do Jordão faz isso com as árvores.

Na noite seguinte, lá estava ela de novo. E na outra. A mesma folha, no mesmo lugar, na mesma porta. Eu notava porque tinha que passar por cima toda vez que ia até a sala de medicação. Me irritava mais do que devia.

Sou enfermeira plantonista no Lar São Vicente, um asilo aqui na cidade. Plantão noturno, um fim de semana sim, outro não. Faço isso há quase dois anos, desde que comecei a faculdade. Não sou do tipo que se assusta com barulho estranho. Mas aquela folha ali… tinha algo. Toda santa madrugada ela estava lá. Seca, quebradiça, com a nervura central partida no meio.

Dona Lourdes, a auxiliar que tem o plantão fixo da noite, ficou uma vez parada com as mãos nos bolsos do casaco, só olhando pro capacho em frente ao quarto catorze.

"Quem que faz isso aqui?" ela disse.

Não respondi. Eu não tinha a menor ideia.

O quarto catorze estava vazio desde março. A senhora que morava lá, dona Zélia, tinha falecido no outono. Oitenta e nove anos. Nunca cheguei a conhecê-la — comecei a trabalhar só depois do carnaval. Mas tinha ouvido falar bastante. Ela gostava de sentar no jardim, perto dos ipês, quando o tempo ajudava. E tinha um gato que sempre ia até ela.

O gato se chamava Fumaça. Todo mundo no asilo conhecia ele. Pelagem rajada de branco, caramelo e preto — daqueles tricolor. Tinha aparecido um dia perto da cozinha e, desde então, simplesmente ficou. Ninguém pediu licença pra ele. Ele só estava ali.

Eu tenho gata em casa também. Uma gata idosa chamada Mimosa. Ela sempre está deitada na caminha dela quando chego do plantão. Sei que gato faz coisa estranha. Mas isso?

Numa madrugada eu vi. Devia ser umas duas da manhã, e eu saía do quarto de um paciente no fim do corredor. Ouvi alguma coisa antes de ver. Não era um som que assustasse — mais um farfalhar baixinho. Fiquei parada.

Fumaça estava sentado no parapeito da janela, no final do corredor. Tinha algo na boca. Uma folha. Ele saltou do parapeito, e não era o salto ágil de um gato jovem. As patas da frente dobraram por um instante, a pata de trás escorregou um pouco pro lado. Mas ele se manteve de pé. Caminhou pelo corredor. Não foi em direção à cozinha. Nem pro canto onde ficavam as toalhas, perto da lavanderia. Foi direto pro quarto catorze. Deixou a folha na frente da porta. Deu alguns passos pra trás. E se deitou. Esperando.

Fiquei ali parada. Não conseguia me mover. Tinha algo no jeito que ele pousou a folha — com cuidado, como se fosse algo valioso. Não era uma folha morta qualquer. Era outra coisa.

Não contei nada pra ninguém naquela noite. Mas na manhã seguinte, na troca de turno, mencionei pra dona Lourdes. Ela olhou pra mim. Depois foi até a mesinha dela e pegou um pen drive.

"Eu andei vendo as gravações antigas," ela disse.

Sentou na frente do computador. Fiquei atrás dela. O vídeo mostrava o jardim dos fundos. Uma senhora idosa numa cadeira de rodas, debaixo de um ipê grande. Dona Zélia. Tinha uma manta sobre o colo. E no colo estava o Fumaça. Ela pegava uma folha seca, esfarelava entre os dedos, e o gato pegava os pedacinhos com a pata. A senhora ria — não dava pra ouvir, mas os ombros dela tremiam de leve. De novo e de novo. Folha após folha.

"Todo santo dia, durante três anos," disse dona Lourdes. "Quase sem falhar um. Ela sempre pedia pra ser levada pro jardim, só não ia quando chovia."

Vimos mais trechos. De junho, de agosto, de outubro. Sempre a mesma coisa. A senhora com a folha, o gato pegando os pedacinhos. Alguns vídeos tinham som — e num deles dava pra ouvir dona Zélia falando algo pro gato. Nem eram palavras exatamente, só uma voz de senhora idosa tentando fazer um som que o bichano gostava.

E, no final de cada vídeo, sempre o mesmo horário: duas e treze da madrugada. Era a hora em que sempre a levavam de volta pro quarto. Duas e treze da manhã. Na última vez que a levaram pela porta do quarto catorze, foi exatamente nesse horário. Foi a última vez que o Fumaça a viu.

Fiquei olhando a tela. Pensei na Mimosa, em casa. Devia estar dormindo na caminha dela. Pensei no que ela faria se, de repente, eu nunca mais voltasse.

Dona Lourdes falou: "Cento e quarenta e duas noites." Apontou pro calendário na parede. "É esse o tempo que a folha tá aparecendo lá."

Cento e quarenta e duas noites. Tentei imaginar. Como um gato idoso, toda madrugada, procura uma folha seca, atravessa um corredor vazio carregando ela, deixa na frente de uma porta que não abre mais. E espera.

Nunca tinha visto dona Zélia. Nunca tinha ouvido a voz dela. Nunca tinha segurado a mão dela. Mas eu vi o Fumaça. E isso foi o suficiente.

Na manhã seguinte, eu estava saindo do prédio quando vi que alguém tinha colocado uma caminha em frente à porta do quarto catorze. Uma cestinha de vime pequena, com uma mantinha fofa dentro. No parapeito da janela, no fim do corredor, estava um punhado de folhas secas de ipê, bem frescas. Devia ter sido coisa de dona Lourdes. Ela não tinha gato em casa — uma vez tinha me contado que era alérgica, mas que já nem se importava mais com isso.

Não disse nada. Só passei direto. Mas naquela noite, quando desci o corredor por volta das duas da madrugada, a caminha estava ocupada. O Fumaça estava ali, enrolado na mantinha. Tinha deixado uma folha seca em frente à porta, como sempre. Mas, dessa vez, não ficou deitado no piso frio.

Ele estava dormindo.

Fiquei parada ali um instante. Depois segui pra sala de medicação. Ainda tinha um plantão longo pela frente, e a Mimosa ia querer comida quando eu chegasse em casa.

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