O berço que ninguém reclamou em Jaboatão

Eu tinha dado à luz há seis horas quando o Rogério olhou pro celular, depois pra mim, e falou: "Vai de Uber pra casa amanhã. A gente combinou rodízio de carne com minha família."

A enfermeira tinha colocado o Theo nos meus braços fazia menos de dez minutos. Eu ainda sentia o cheiro de álcool do centro cirúrgico, os pontos ainda ardiam cada vez que eu respirava mais forte. E ele, em pé do lado da cama, com o paletó já vestido, só esperando a hora de ir.

"Como assim amanhã?" eu perguntei. Minha voz saiu mais fina do que eu queria.

Dona Zuleide, minha sogra, ajeitou a pulseira de ouro no pulso e soltou aquele suspiro dela, o que ela sempre dava quando achava que eu estava "fazendo cena".

"Camila, filha, não complica. Você recebe alta de manhã, o ponto de ônibus é ali na esquina do hospital. A gente já reservou mesa no rodízio pras oito."

"Eu tive o neném há seis horas, Dona Zuleide."

Rogério deu de ombros, enfiando a mão no bolso pra pegar a chave do Corolla — o Corolla que eu tinha dado de entrada, diga-se de passagem.

"Meu pai e minha mãe vieram de Caruaru pra isso. Você quer que a gente cancele a reserva porque você tá cansada?"

A irmã dele, a Patrícia, torceu a boca num meio sorriso.

"Mulher tem neném todo dia, Camila. Relaxa."

Fiquei olhando pra aquele trio. Os casacos bem passados, o batom vermelho da Dona Zuleide intacto, a mão do Rogério já na chave do carro que era meu. O Theo fez um barulhinho fraco, quase um suspiro, e eu o apertei mais contra o peito.

"Rogério," eu disse, "você vai mesmo me deixar aqui sozinha?"

Ele se abaixou perto de mim, baixou a voz pra só eu escutar.

"Não faz esse de coitadinha. Devia era agradecer que minha família até aceitou você."

Aceitou. Por eu ser quieta. Por nunca ter mostrado o que eu tinha guardado. Por deixar ele e a família dele pensarem que eu era só uma menina do interior de Pernambuco, sem nada por trás do nome.

Dona Zuleide pegou a bolsa de fraldas, abriu o zíper, olhou dentro e fez cara de nojo.

"Que coisa mais simples. Depois a gente troca tudo — se o neném saísse na cara do Rogério, aí sim."

Alguma coisa dentro de mim mudou de lugar ali. Não foi raiva. Nem dor, exatamente. Foi mais como se uma névoa tivesse baixado de repente, e eu visse tudo com uma nitidez que eu não tinha antes.

Rogério deu um beijinho rápido na testa do Theo — daqueles beijos de fotografia, pra platéia — e virou de costas.

Na porta, ele parou.

"Não fica me ligando toda hora. A gente vai é comemorar."

A porta fechou com aquele clique seco.

Fiquei sentada ali. Os pontos pulsando, o corpo todo mole de cansaço, o Theo adormecido contra o meu peito. Chorei uns três, quatro minutos. Depois parei.

E peguei o celular.

Tinha dois contatos que o Rogério nunca se deu ao trabalho de perguntar quem eram. O meu advogado. E o escritório particular do meu pai.

Liguei pro advogado primeiro.

"Camila?" O Doutor Heleno atendeu na segunda chamada. "O bebê já nasceu?"

"Nasceu," respondi. "E o Rogério acabou de sair e me deixar aqui, com o neném."

Ficou um silêncio curto na linha. Depois a voz dele mudou — ficou mais seca, mais direta ao ponto.

"Você quer seguir com aquilo que a gente conversou mês passado?"

Olhei pro Theo, os dedinhos minúsculos enrolados no meu dedo.

"Quero," falei, calma. "Trava tudo."

Doutor Heleno não precisou perguntar o que era "tudo". Fazia três anos que ele cuidava, discretamente, da minha parte na rede de postos e conveniências que eu tinha herdado do meu pai — vinte e dois estabelecimentos entre Jaboatão, Recife e o Cabo. Rogério sempre achou que era tudo "negócio de família dela", um negócio pequeno, sem importância. Ele nunca perguntou os números porque nunca imaginou que valesse a pena perguntar.

A segunda ligação eu fiz pro meu pai.

"Pai," falei, "o Theo nasceu."

Meu pai, o seu Edmilson, ficou calado um segundo — ele sempre fica calado quando a notícia é grande. Depois perguntou, com aquela calma que só ele tem:

"E o marido?"

"Foi comer rodízio com a família."

Outro silêncio. Esse mais longo. E então:

"Manda o endereço do hospital pro Heleno. Eu chego em uma hora."

Durmi um pouco, com o Theo enroscado em mim, a enfermeira trocando o soro de madrugada. Quando acordei, meu pai estava sentado na cadeira ao lado da cama, de terno, os sapatos ainda com poeira da pista do Guararapes. Ele segurou o Theo no colo por cinco minutos sem dizer uma palavra, só olhando pro neto. Depois virou-se pra mim.

"Você decide o que a gente faz com as coisas dele," ele falou. "Eu só preciso de um sim."

"Sim," eu disse.

Às nove da manhã, enquanto o Rogério ainda dormia a mamata do rodízio na casa de Caruaru, o Doutor Heleno já tinha protocolado o pedido de bloqueio das contas conjuntas — contas que, na prática, só existiam porque eu tinha posto dinheiro ali. O cartão adicional do Corolla foi cancelado. E o nome do Rogério, que constava como "sócio-gerente" num dos postos só porque eu tinha colocado ele lá por carinho, sem ele nunca ter investido um centavo, foi retirado do contrato social.

O telefone dele começou a tocar por volta do meio-dia. Eu vi o número aparecer na tela, chamando sem parar. Não atendi.

Às três da tarde ele chegou no hospital, sem fôlego, suado, o paletó do rodízio ainda com cheiro de churrasqueira.

"Camila, o que você fez? Cadê o dinheiro? O cartão não passa, o carro tá bloqueado, o posto de Piedade não me deixa entrar nem no escritório!"

Eu estava sentada na cama, amamentando o Theo, com a pasta azul do Doutor Heleno aberta no colo — a mesma pasta que o Rogério nunca tinha curiosidade de abrir, porque achava que "coisa de documento" era coisa chata.

"Eu não fiz nada, Rogério," respondi, sem levantar muito a voz. "Eu só parei de pagar pelo que nunca foi seu."

Dona Zuleide entrou atrás dele, já sem a pulseira de ouro — provavelmente tinha empenhado no caminho, pela cara de aflição. Ela foi direto pro berço, olhou o Theo, e dessa vez não fez cara de nojo.

"Camila, minha filha, a gente só tava brincando ontem, você sabe como é…"

"Sei," eu disse. "E eu também não tava brincando agora."

Abri a pasta, tirei o documento que o Doutor Heleno tinha deixado preparado, e entreguei pro Rogério. Era o acordo de separação, já com a cláusula de guarda do Theo definida — guarda comigo, visitas supervisionadas pra ele, sem direito a nenhum percentual dos vinte e dois postos, porque nada daquilo nunca esteve em nome dele, e sem direito ao apartamento da Boa Viagem, que estava escriturado em nome da minha empresa desde antes do casamento.

"Você assina até sexta-feira," eu falei. "Ou meu pai muda de advogado e aí o acordo fica bem menos generoso."

Rogério ficou olhando pra folha, a mão tremendo, como se as letras pudessem mudar se ele olhasse com mais força.

"Você… tinha tudo isso e nunca falou nada?"

"Eu falei," respondi. "Você que nunca perguntou."

Ele não assinou ali. Saiu do quarto gritando que ia procurar advogado, que ia lutar pela "metade de tudo". Lutou três semanas. No fim, o advogado dele mesmo aconselhou a assinar, porque não existia nada em nome dele pra disputar — nem o Corolla, que voltou pro meu nome na semana seguinte.

Hoje o Theo tem um ano e dois meses. O apartamento onde moramos agora tem vista pro Rio Jaboatão, bem diferente daquele quarto de hospital onde tudo começou. Na estante da sala, ao lado das fotos do batizado, fica a pasta azul do Doutor Heleno, com a cópia do acordo assinado.

É quinta-feira, dia de visita. Às quatro da tarde em ponto, um carro alugado estaciona na rua, e o Rogério desce já ajeitando a camisa, sem pressa, sem reclamação sobre horário. Pego o Theo no colo, boto o casaquinho dele, e entrego o menino na porta, igual eu faço toda quinzena. Ele agradece, pergunta se o Theo dormiu bem, se precisa levar fralda. Eu respondo, fecho a porta, e volto pra dentro de casa.

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