Na frente da casa dos meus pais, no Grajaú, a chuva caía tão fina que quase não se sentia no rosto. Fiquei parada na porta com uma garrafa de espumante Salton comprada no Pão de Açúcar e a sensação de que o colarinho da minha blusa estava me sufocando. No apartamento do terceiro andar, o pinscher da dona Terezinha latia pro carteiro. Eu devia ter tocado a campainha. Não toquei.
Quatro dias antes, numa quinta-feira à noite, pouco depois das nove, minha mãe tinha ligado. As ligações dela nunca vinham em boa hora.
"Conseguiu?", perguntou, em vez de um simples "oi". "Achou um homem, finalmente?"
Eu estava encostada no balcão da cozinha, com uma xícara de chá de erva-cidreira já fria na mão esquerda. O notebook na mesa piscava com uma planilha do Excel, na qual eu olhava a mesma coluna fazia uma hora.
"Mãe, não é hora. Ainda estou terminando um relatório."
"Ah, suas planilhas. Sua irmã Camila sabe o que importa: casar com um homem de posses e parar de se matar trabalhando. E você? Vai morrer sozinha em cima dos seus papéis. Velha. Infeliz. Sem nenhum neto pra eu ver crescer."
Pousei a xícara e apertei a mão na borda do balcão. Sempre a mesma ladainha. Fazia onze anos. Desde que eu tinha saído de Bauru e me mudado para São Paulo, começando a trabalhar sessenta horas por semana.
"Vou no sábado", eu disse, quando ela fez uma pausa. "E vou levar meu namorado."
Do outro lado, só o som do rádio do banheiro por um instante.
"Seu quê?"
"Namorado. Ele é meu chefe e usa terno sob medida. Já chega?"
Ela desligou, como se tivesse medo de que eu mudasse de ideia. Fiquei ali, parada na cozinha. De onde eu ia tirar um namorado em dois dias?
Na sexta de manhã, no escritório, Rodrigo Teixeira entrou na minha sala bem na hora em que eu tirava o grampo do cabelo. O ar-condicionado tinha pifado, eu tinha desabotoado o primeiro botão da blusa e soltado o cabelo do coque.
Ele parou no vão da porta e levantou uma sobrancelha. "Juliana, interrompi algo?"
"Tudo bem. O que você precisa?"
"Queria falar sobre a reclamação do cliente de Salvador. A transportadora está se recusando a assumir os custos."
Prendi o cabelo atrás das orelhas e fechei a porta. Depois expliquei a minha situação: jantar de família no sábado, no Grajaú, uma mãe que me considera uma solteirona, uma irmã que acha que eu traí minha vida por causa de números. E uma mentira improvisada que ia desmoronar sem um acompanhante.
Rodrigo se encostou na minha mesa. "Você quer que eu faça o papel do seu namorado?"
"Só por algumas horas."
"E o que eu ganho com isso?"
Eu ia falar algo sobre dever de amizade, mas ele continuou.
"Vai pra Salvador na segunda e resolve essa reclamação com a transportadora pessoalmente. Daí eu faço o papel do seu namorado."
"Por quê?"
"Porque vai ser divertido. E porque você me salvou há três anos, em Belo Horizonte, quando o sistema caiu bem na apresentação. Eu não esqueço."
Apertei os lábios e aceitei. Parecia uma negociação. Pra mim, era legítima defesa.
No sábado à noite, lá estava eu com meu falso namorado na porta dos meus pais. O apartamento tinha cheiro de feijoada e pudim de leite. Na sala, a TV estava na Globo, algum programa de fim de tarde falando de jardinagem. Minha mãe abriu a porta de supetão e avaliou Rodrigo dos sapatos ao colarinho da camisa, como se ele fosse um carro que ela estivesse pensando em financiar.
"Entra, entra", disse, com uma simpatia exagerada. "E você", puxou minha manga, "nem me contou que ele era tão bem apresentado."
À mesa já estavam minha irmã Camila e o namorado dela, o Bruno. Bruno usava um terno de loja popular, meio justo, e dirigia um Chevrolet Onix com a porta do carona amassada. Camila tinha descolorido o cabelo a ponto de as pontas parecerem palha velha. Ela ficou analisando Rodrigo como se ele ainda estivesse entrando na sala, mesmo já sentado.
"O que você faz?", perguntou minha mãe, antes mesmo de ele garfar o primeiro pedaço de feijoada.
"Dirijo o setor de logística da Rodotrans."
"E ganha bem?", ela insistiu.
Foi aí que entrei. O espumante na minha taça estava morno e tinha gosto de suco de uva. "Mãe, eu não fui totalmente sincera com você. Rodrigo é meu chefe."
Camila deixou o garfo cair no prato. Fez um estrondo.
"E eu vivo às custas dele."
Rodrigo continuou mastigando, tranquilo. "Eu mimo minha assistente. Ela é insubstituível."
Minha mãe pousou os talheres. Os olhos dela ficaram fixos em Rodrigo como se estivesse olhando pra um bilhete de loteria premiado. "Que rapaz jovem, e já com tanto sucesso."
Bruno afrouxou a gola com o dedo e olhou pra mim. "A gente se conhece do colégio técnico, né? Você sempre disse que nunca ia depender de homem."
O cachorro do vizinho, do outro lado da rua, começou a latir. Eu teria dado um chute nele embaixo da mesa se pudesse. Em vez disso, bebi o resto do espumante de uma vez.
"Os tempos mudam", disse Rodrigo, calmo. "Ou não, Juliana?"
Minha mãe se inclinou pra frente. "E quando vai ser o casamento?"
Quase ri. "Assim que tivermos uma data marcada, você é a primeira a saber, mãe."
Depois me virei pro Bruno. "E você? No que trabalha?"
Bruno fitou o prato como se a feijoada o tivesse ofendido. "Estou numa fase de transição."
"Transição pra onde?", perguntou Rodrigo, se servindo de pão de alho.
"É meio complicado agora. A última empresa fez uma reestruturação. Estou avaliando minhas opções."
Minha mãe fez um ruído, como se tivesse bebido vinagre. Camila apertou os lábios. Ao lado de Rodrigo, Bruno parecia um estagiário passando a primeira camisa social na vida.
Depois do jantar, minha mãe me arrastou pra cozinha, enquanto Rodrigo era interrogado por Camila na sala. Ouvi ela perguntando sobre o carro, se era zero-quilômetro, sobre planos de viagem.
"Camila precisa de 4.000 reais em janeiro", minha mãe sussurrou. "A faculdade particular cobra isso pra renovar a matrícula. E Rodrigo não parece ser de olhar pro dinheiro."
Senti frio naquela cozinha abafada. "Eu transfiro o valor pra você."
Ela me abraçou rapidamente, os lábios secos na minha testa. "Você é um anjo. Eu sabia que você pensava na sua irmã."
Do lado de fora, o cachorro latiu de novo. Lavei as mãos na água fria e fiquei olhando a água não conseguir levar o cheiro de feijoada.
Rodrigo me acompanhou até a porta. A chuva tinha parado, mas a rua estava brilhando.
"Você paga por toda a família, não é?"
"Isso não é da sua conta."
"É, sim. Você me meteu na sua mentira. Agora vou ficar de olho em você se afogando nela."
Apertei o casaco no corpo. "Então fique de olho."
Ele sorriu e entrou num carro alugado, um Toyota Corolla escuro. "Até segunda. Salvador. Devia dormir, Juliana."
Mas eu não dormi. Em casa, sentei na poltrona, ainda de casaco, e li no celular a mensagem da minha mãe: "Obrigada pelos 4.000. Você é um anjo."
Não respondi. Não apaguei a conversa. Deixei o celular com a tela pra baixo na mesinha de centro.
Na segunda de manhã, antes do voo, fui ao banco na Avenida Paulista. O lugar tinha cheiro de máquina de café precisando de manutenção urgente. Na minha frente, uma senhora digitou a senha errada três vezes.
Quando chegou minha vez, tirei meu RG da carteira.
"Quero cancelar uma transferência automática. Ela cai na conta da minha mãe, pra minha irmã. Oitocentos reais por mês."
A atendente digitou no sistema. "Essa transferência está ativa há onze anos e três meses. Tem certeza?"
Não fiz a conta de cabeça, já tinha calculado isso há tempos. "Oitocentos vezes doze vezes onze. São 105.600 reais. Sim, tenho certeza."
Ela imprimiu um comprovante. Peguei a folha, coloquei dentro de um plástico transparente e guardei na bolsa.
No ponto de ônibus na frente do banco, enquanto o 809M se aproximava, abri o aplicativo do banco no celular. Depois mandei uma mensagem pra minha mãe: "A transferência pra Camila foi cancelada. A partir de agora vocês se viram."
Entrei no ônibus, sentei perto da janela e vi a cidade passar. O motorista anunciou: próxima parada, Metrô Vila Mariana. Não senti nada. Isso foi o peor.
À noite, bateram na porta do meu apartamento. Três vezes, rápido e forte.
Eu sabia quem estava ali antes mesmo de abrir a porta. Minha mãe passou por mim sem pedir licença, Camila logo atrás, com manchas vermelhas no rosto.
"O que é isso?", minha mãe gritou. "Você não pode fazer isso! Esse dinheiro vem do Rodrigo!"
Peguei o plástico da bolsa e coloquei na mesa da cozinha.
"Aqui está o comprovante. Oitocentos reais por mês. Onze anos. 105.600 reais. Hoje acabou."
"Não foi você! Foi o Rodrigo!"
Puxei o celular, abri o aplicativo do banco e mostrei pra ela. Estava tudo escrito ali: Depósito salário Rodotrans Logística, 5.200 reais líquidos, mês após mês. Nenhum Rodrigo. Nenhum namorado.
"Rodrigo é meu chefe. Não meu namorado. Eu menti, mãe. Porque senão você ia me dizer de novo que eu vou morrer sozinha em cima dos meus papéis. Só que eu já estava pagando. Por tudo."
Camila começou a chorar. "E agora como eu pago minha faculdade?"
"Pergunta pro seu Bruno. Ele é tão promissor, não é? Ou pra sua fase de transição."
Minha mãe empurrou o plástico pra fora da mesa. A folha voou e caiu no chão. "Você é uma pessoa fria. Sabia?"
Peguei a folha do chão. Tinha um vinco no canto.
"Eu só sei que não sou mais a única que trabalha aqui."
Minha mãe agarrou o braço da Camila e puxou ela em direção ao corredor. A porta bateu atrás delas.
Fiquei um tempo ali na cozinha, com o comprovante na mão. Depois peguei o celular e liguei pro Rodrigo.
"Salvador amanhã, 6h45", ele disse, sem nem um "oi".
"Estou dentro", eu disse.
"E a visita da família?"
"Acabou."
Ele ficou calado um instante. "Pena. Eu estava gostando de ser seu namorado."
"Você nunca foi meu namorado."
"Eu sei." A voz dele saiu divertida. "Até amanhã, Juliana."
Desliguei, tirei a folha do plástico e alimentei o fragmentador de papel ao lado da minha mesa. O motor zumbiu até o comprovante virar só tirinhas finas. Depois abri o notebook e reservei, pra aquela noite, uma mesa num restaurante no Itaim Bibi. Pra uma pessoa. A conta eu mesma ia pagar.











