Rudi de Osasco

Eu não estava planejando adotar cachorro nenhum. Entrei pro voluntariado de um abrigo em Osasco porque uma colega do trabalho vivia postando no grupo do Facebook — que era só duas horas no sábado, que dava pra tirar os cachorros pra passear perto de casa, que não tinha compromisso nenhum. Eu tinha trinta e quatro anos, um apartamento na Vila Yara com vista pra uma torre de transmissão e nunca tinha tido cachorro na vida. Meus pais tinham gato, eu tinha alergia a pelo quando criança, então sempre ficou entalado na cabeça: isso não é pra mim.

No primeiro sábado peguei um schnauzer, jovem, uns dois anos. Puxava tanto a guia que meus dedos ainda doíam no domingo. No segundo sábado foi uma cadelinha, uma vira-lata de raça indefinida, que latia pra pombo, pra bicicleta, pra própria sombra. No terceiro sábado a mulher da recepção, a Marlene, falou direto comigo:

— Pega o Rudi. Canil número sete. Ninguém quer ele porque já tem onze anos.

Onze anos. Perguntei se não era muito velho pra um passeio.

— Pega, você vai ver.

Abri a grade. O cachorro, uma mistura de pastor com algo peludo, castanho-avermelhado, com os pelos do focinho já grisalhos, se levantou do colchonete sem pressa nenhuma. Veio até mim, ficou parado do lado da minha perna e simplesmente esperou eu colocar a guia — como se já tivesse feito aquilo centenas de vezes, não fosse a primeira.

No passeio ele andou no meu ritmo, sem puxar. Passamos pela banca de jornal, pelo ponto de ônibus da linha que vai pro terminal, por uma pracinha cheia de criançada gritando no escorregador — o Rudi não deu bola pra nada, seguiu do meu lado que nem metrônomo. Sentei num banco perto do lago do Parque Ecológico. Ele apoiou o focinho no meu joelho. Senti o peso daquela cabeça através do jeans, o calor, e que ele respirava devagar. Ficamos assim uns quinze minutos. Do lado um senhor jogava farelo de pão pra um bando de marrecos, batendo asa, respingo d'água — e o Rudi nem moveu a orelha.

Devolvi ele pro canil. A Marlene perguntou como tinha sido.

— Foi bom — falei. — Até sábado que vem.

Aquela noite não consegui dormir. Ficava voltando naquela cabeça no joelho, no peso, no fato de que por quinze minutos minha cabeça tinha ficado vazia em vez de cheia de lista de tarefa. Na sexta no trabalho — trabalho no RH de uma transportadora perto da Marginal — me peguei duas vezes olhando pela janela em vez da planilha.

Sábado. De novo canil número sete, de novo o mesmo banco, de novo a cabeça no joelho. Domingo — a mesma coisa, só que dessa vez levei um pão de queijo e comi sentada do lado dele, e ele nem tentou arrancar de mim, embora o cachorro da vizinha do lado atacasse comida que nem lobo faminto.

Na segunda liguei pro abrigo no horário de almoço, parada na escada do prédio porque não queria que ninguém no escritório ouvisse.

— Bom dia, estou ligando sobre o Rudi, do canil sete.

— Sim, pois não?

— Eu queria adotar ele.

O silêncio do outro lado durou um instante.

— Sério? Nessa idade ninguém quer, sabe. Geralmente pegam filhote.

— Eu sei. Eu quero justamente ele.

A papelada levou duas semanas — termo de adoção, declaração de que eu não ia devolver ele depois, visita de um funcionário do abrigo no meu apartamento pra ver se não tinha escada sem corrimão e se as janelas tinham tela de proteção. Levei ele pra casa numa quarta-feira, em setembro, quando os ipês estavam floridos na avenida.

Nos primeiros dias ele ficava andando pelo apartamento cheirando os cantos, como se conferisse se aquilo era mesmo definitivo. Dormia no corredor, não na caminha que eu tinha comprado no pet shop da esquina — só depois de uma semana ele passou pro cobertor debaixo da minha mesa. A vizinha de baixo, dona Aparecida, bateu na porta no terceiro dia pra perguntar se era verdade que eu tinha pegado um cachorro velho, porque na opinião dela era besteira — "ele vai morrer logo, pra que se apegar". Não respondi nada, só agradeci por ela ter recolhido as cartas que estavam saindo da minha caixa de correio.

Passaram três meses. O Rudi dorme debaixo da mesa quando eu trabalho em home office, não late pro entregador na porta, não destrói sapato, não sobe no sofá. De manhã, quando coo café na cozinha, ele senta do meu lado e espera eu me sentar — aí encosta a cabeça no meu joelho, exatamente como daquela vez no banco do parque.

No sábado passado voltei ao abrigo, dessa vez não como voluntária pra passear com cachorro alheio, mas pra doar um saco de ração seca que sobrou mais do que o Rudi vai conseguir comer. A Marlene viu ele na guia, se abaixou, fez carinho atrás da orelha dele.

— Ele reconhece você — falou.

— Não é a mim que ele precisa reconhecer — respondi. — Ele já sabe que está voltando pra casa dele.

O veterinário da clínica perto de casa, onde levei ele pra consulta semana passada, falou que o coração dele está um pouco fraco, coisa normal pra cachorro dessa idade, mas nada que precise de remédio por enquanto. Perguntou quanto tempo ainda eu pretendia ficar com ele. Respondi que o tempo que ele mesmo decidisse — e que esse era o único plano que já tinha me satisfeito de verdade. O Rudi, nesse momento, estava deitado no chão do consultório, cabeça em cima do meu tênis, esperando eu terminar de conversar.

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