Simba nunca mais quis os quarenta e dois mil que o irmão devia

O canil municipal de Itu fica numa rua sem asfalto, atrás do posto de gasolina, e é lá que a veterinária Deise Nogueira, trinta e sete anos, trabalha desde que se separou do marido e precisou fechar a clínica que os dois tinham montado juntos em Sorocaba. Foi ela quem encontrou o husky no fundo do canil, dia quinze de agosto, encolhido perto do bebedouro de metal, com o focinho quase colado na parede descascada.

Não latia. Não se aproximava da grade quando alguém passava. Ficava ali, quieto, as patas dianteiras cruzadas uma sobre a outra, como se tivesse decidido que o mundo já não merecia atenção nenhuma.

— Esse aqui chegou há três semanas — contou o zelador, o seu Amaro, enquanto varria o corredor. — O dono largou ele amarrado no portão, de madrugada, nem tocou a campainha. Só uma coleira e um bilhete: "não posso mais cuidar".

Deise batizou o cão de Simba, porque tinha uma mancha dourada em volta do pescoço, como uma juba desbotada. E foi cuidando dele, sem forçar contato — trazia frango desfiado, sentava no chão a um metro de distância, esperava.

A parte que ninguém sabia era o motivo de Deise ter voltado a trabalhar num canil depois de anos de clínica particular. O irmão dela, Robson, tinha pedido emprestado quarenta e dois mil reais pra reformar a oficina mecânica da família em Itu — aquela que o pai deixou pros dois, na Rua Barão do Rio Branco. Prometeu devolver em oito meses. Passou dois anos. Aí, sem avisar, vendeu metade da oficina pro sócio novo e ainda registrou o imóvel só no nome dele, usando uma procuração antiga que o pai tinha assinado antes de morrer, achando que era só pra questões de manutenção.

Deise descobriu isso quando foi pedir um adiantamento do próprio dinheiro, que estava investido no negócio, pra cobrir o aluguel do apartamento que alugou sozinha depois da separação. Robson disse que não tinha como, que o dinheiro "já tinha um destino", e desligou o telefone.

Foi na mesma semana que ela conheceu Simba.

Passou a ir ao canil todo dia às seis da manhã, antes do plantão na prefeitura, só pra sentar perto dele. Levava biscoito de fígado que comprava na Casa de Ração da Avenida Politécnica. No terceiro domingo, Simba encostou o focinho na mão dela. Não chegou a lamber. Só encostou.

— Ele tá testando se você vai embora — disse o seu Amaro, apoiado na vassoura.

Deise não foi embora. Voltou também na segunda, na terça, levou uma manta velha do próprio sofá porque achou que o concreto do canil estava frio demais pra outubro. E foi numa dessas visitas, com o celular tocando no bolso do jaleco, que ela atendeu e ouviu a voz do advogado da família — doutor Ivo Camargo, que cuidava do inventário do pai desde 2019.

— Dona Deise, apareceu uma cláusula que o senhor seu pai deixou registrada em cartório, sobre a divisão da oficina. O Robson não tinha esse documento quando fez a transferência. A senhora tem direito a contestar a venda.

Ela sentou no banco de cimento do canil, com Simba deitado ao lado, cabeça no colo dela, e ouviu tudo, os dedos parados no ar sem terminar o cafuné que tinha começado. O documento dizia que a oficina só podia ser vendida ou repassada com assinatura dos dois herdeiros — e Robson tinha forjado a ausência dela numa reunião de sócios pra validar a transferência sozinho.

Três semanas depois, Deise entrou no escritório do doutor Ivo, na Rua XV de Novembro, com uma pasta azul debaixo do braço. Dentro, a certidão do cartório, o contrato original do pai e a notificação extrajudicial que anulava a venda feita por Robson. Assinou tudo ali, numa mesa de vidro, com uma caneta emprestada da secretária.

Robson apareceu no canil no sábado seguinte. Ninguém tinha dado o endereço — ele seguiu o carro dela depois de descobrir pelo doutor Ivo que a irmã trabalhava ali agora.

— Você não pode fazer isso comigo, Deise. Eu já fechei negócio com o Anderson, já recebi metade do dinheiro.

— Então devolve a metade — ela respondeu, sem levantar da grade onde estava, Simba encostado na perna dela. — E me paga os quarenta e dois mil que você pegou emprestado há dois anos. Com atualização, são cinquenta e um mil e trezentos. Fiz a conta ontem.

— Você vai me processar por causa de dinheiro de família?

— Não é de família, Robson. É meu. Do papai. E agora, oficialmente, também da Justiça.

Ele ficou parado do lado de fora da grade do canil, sem conseguir entrar porque o seu Amaro tinha fechado o portão automático assim que viu a discussão esquentar. Simba latiu — pela primeira vez desde que chegou ali — um latido curto, seco, na direção do homem do outro lado da cerca.

Robson foi embora sem dizer mais nada.

Duas semanas depois, o cartório de Itu formalizou a anulação da venda. A oficina voltou a ser de dois donos, e Deise usou a primeira parcela da restituição — dezoito mil reais — pra reformar o canil municipal: telhado novo, três baias cobertas e um bebedouro automático que não gela no inverno.

Simba nunca mais foi adotado por ninguém além dela. Deise levou os papéis de adoção pro escritório do doutor Ivo pra autenticar, junto com os documentos da oficina, no mesmo dia. Hoje ele dorme num canto do quintal dela, na Vila Nova, debaixo de um pé de amora que a vizinha reclama que suja a calçada — e Deise não troca essa reclamação por nada.

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Simba nunca mais quis os quarenta e dois mil que o irmão devia