Setenta e um anos, e ainda assim Zeca insistia em me acordar às seis da manhã, focinho frio empurrando minha mão para fora do cobertor. Lá fora, no beco atrás do meu prédio em Petrópolis, o leiteiro — que na verdade vende pão de queijo e café coado de uma garrafa térmica surrada — já estava montando a banca. O cheiro subia até a minha janela antes mesmo de eu abrir os olhos direito.
Eu me chamo Neuza. Fui professora de piano durante trinta e oito anos, numa escolinha perto da Praça da Confluência, e quando me aposentei jurei duas coisas: que não ia virar "a vovó do apartamento 302" e que também não ia me pintar toda pra fingir que ainda tinha quarenta.
Minha vizinha do andar de baixo, Dona Aparecida, é dessas que travou uma guerra particular contra o espelho. Salto alto pra ir na padaria, batom vermelho vivo desde as sete da manhã, e uma cirurgia atrás da outra — o rosto dela, coitada, já nem se mexe direito quando ela ri. Uma vez perguntei se ela não tava cansada de tanto puxar. Ela desconversou, falou de outra coisa, e eu não insisti.
Já a Dona Ivone, do bloco B, é o oposto completo. Desistiu. Larga o cabelo grisalho solto e desgrenhado, usa o mesmo roupão desbotado pra descer o lixo, pra ir no mercado, pra tudo. Um dia falei "que vestido bonito, aquele azul que você tinha", e ela respondeu, seca: "Pra quê, Neuza? Sou uma velha, ninguém repara mesmo."
Fiquei pensando nas duas a tarde toda, sentada na varanda com Zeca deitado em cima dos meus pés — ele pesa uns doze quilos e finge que não sabe que amassa minhas pernas. Vi passar o ônibus 415 lá embaixo, cheio como sempre àquela hora, e pensei: será que existe um jeito de estar entre essas duas mulheres? Nem a batalha, nem a rendição.
Foi minha filha Renata quem me deu a resposta, sem querer, num domingo. Ela chegou com uma revista velha, dessas de banca, e mostrou uma foto de duas atrizes brasileiras que eu conhecia desde os tempos de novela em preto e branco — uma delas com um vestido verde-esmeralda e um chapéu de aba larga, brincos grandes, batom cor de vinho; a outra ao lado, num tailleur cinza simples, cabelo curto e grisalho impecável, sem nenhum adorno além do próprio olhar sereno. Nenhuma das duas parecia estar disputando nada com o tempo. E nenhuma parecia ter desistido de nada.
"Olha, mãe", disse Renata. "Nenhuma das duas tá fingindo ter vinte anos. Mas também nenhuma tá se escondendo."
Foi aí que entendi o que eu andava tentando descrever há meses sem achar as palavras. Não é sobre esticar a pele. Não é sobre se enrolar num roupão e desistir da vida. É sobre outra coisa — a postura de quem senta ereta, o jeito de olhar de frente, as mãos cuidadas mesmo que enrugadas, um brinco bonito escolhido com carinho, um batom na cor certa. Elegância que não grita mais, só fala mais baixo.
O problema é que essa história com Zeca e as reflexões de varanda não resolveu o que realmente estava me incomodando havia semanas: meu genro, Marcelo, tinha começado a tratar minha casa como um depósito temporário da vida dele.
Deixa eu explicar. Depois que ele e Renata se separaram — coisa de uns oito meses —, ele continuou aparecendo no meu apartamento como se nada tivesse mudado. Comendo na minha mesa, usando meu carro (um Chevrolet Onix 2015 que era todo meu orgulho), pedindo dinheiro emprestado "só até o próximo pagamento", que nunca chegava a ser devolvido. Eu deixava, porque é pai da minha neta, Bia, de nove anos, e porque, sei lá, achava que era assim que se ajudava a família.
Até o dia em que descobri, por acaso, que ele tinha aberto uma conta conjunta com o nome dela — a Bia — numa corretora, e vinha usando o dinheiro do pensionamento da menina, que eu mesma completava todo mês com quatro mil e duzentos reais tirados da minha aposentadoria, pra pagar dívida de cartão de crédito dele. Doze mil reais sumidos em sete meses.
Fiquei sabendo porque o gerente do banco, o Seu Wagner, me ligou perguntando se eu autorizava um saque maior do que o normal — porque meu nome ainda constava como responsável suplente na conta da neta, coisa que eu tinha esquecido completamente que existia.
Não gritei. Não fiz cena. Larguei o telefone, servi um café, sentei na mesma varanda de sempre, com Zeca roncando ao meu lado, e passei a tarde toda pensando em Dona Aparecida esticando o rosto pra disfarçar o tempo e em Dona Ivone se escondendo dentro do roupão. E entendi que a lição que eu andava dando pra mim mesma sobre envelhecer com dignidade valia também pra isso: dignidade não é ficar calada.
No sábado seguinte, marquei pra Marcelo aparecer "pra buscar um casaco que ele tinha esquecido". Ele chegou de tênis novo, aqueles Nike branquinhos que certamente não comprou com salário de vendedor de peças automotivas. Sentei ele na mesma mesa onde ele tinha almoçado tanta vez de graça, e abri, na minha frente, uma pasta azul que eu tinha preparado com o Seu Wagner na quinta-feira: extrato da conta da Bia, comprovante de transferência de retirada de responsável suplente, e uma nova conta poupança aberta só em nome da menina, com uma cláusula de bloqueio até ela completar dezoito anos.
"Assinei a retirada da tutela suplente ontem", falei, empurrando a folha pra ele ler. "A partir de segunda, o dinheiro da Bia vai direto pra essa poupança nova, e nem eu nem você mexemos mais nele. E o Onix" — apontei pra chave em cima da mesa — "eu vou vender. Já tenho comprador, um professor lá da escola de música, oferece dezoito mil à vista."
Ele tentou argumentar, disse que era temporário, que ia devolver, que eu tava sendo dura demais. Eu só olhei pra pasta aberta entre nós dois, com o número certinho — doze mil reais — sublinhado a caneta, e disse que não ia mais completar pensão nenhuma com dinheiro que sumia pra pagar fatura dele.
Ele saiu sem o casaco. Esqueceu de verdade dessa vez.
Zeca latiu pra ele lá da porta, coisa que nunca fazia. Fechei a fechadura, virei a chave duas vezes — coisa que também não costumava fazer — e voltei pra varanda terminar o café, que ainda estava morno.












