Marta estava agachada na sala, mexendo nos álbuns de fotografia. O notebook de Sérgio piscou em cima da mesa de centro — ele tinha esquecido a tampa aberta. A tela acendeu no meio da penumbra e Marta, sem querer, fitou a mensagem que estourava no WhatsApp: “Quando você vai se livrar da sua mulher? Tô com saudade do teu cheiro.” Ela ficou imóvel, com a foto do casamento nas mãos. As violetas no parapeito ainda recendiam a terra molhada — ela tinha regado fazia pouco.
Abriu a conversa. A senha era 1406, o aniversário do Rafael. O histórico com “Camila — RH” era um golpe seco. Dois anos. Planos para o fim de semana em Matinhos, num plantão noturno dela. Fotos de Camila na praia de Paranaguá, segurando um coco com canudo, quinze anos mais nova. E um áudio de Sérgio: “Ela nem percebe mais nada. Pra ela só importa a casa e os filhos. Já era.” Marta repetiu a última linha três vezes, como se procurasse uma vírgula escondida.
Não gritou. Levantou, guardou o álbum, tirou um print da tela e mandou para o próprio e-mail. Depois fechou o notebook, foi para a cozinha e passou um café. No espelho sobre a pia, viu o próprio rosto: calmo, como quem assiste a uma notícia alheia.
Sérgio chegou às oito da noite. Tirou os sapatos, pendurou a chave no gancho, notou Marta sentada à mesa, o celular na mão, o notebook aberto entre os dois.
— Que foi? — perguntou, e a voz saiu fina.
— Há quanto tempo, Sérgio? — ela não o chamou de “bem” como fazia havia trinta anos. A pergunta ficou no ar.
Ele sentou, curvou os ombros.
— Você não ia entender. A gente tava vivendo no automático.
— Automático? — Marta ergueu o celular, a tela com o print. — Isso é automático? Vocês combinando rolé na minha folga?
Sérgio esfregou a testa.
— Eu não era feliz com você faz tempo. A Camila me faz sentir vivo.
Marta não chorou. Só respondeu:
— Não fala isso pros teus filhos.
Os filhos souberam rápido. Rafael chegou de moto, sem capacete, olho vermelho.
— Mãe, o que houve? A tia Neide me ligou.
Mariana bateu na porta do pai na manhã seguinte e disparou antes do “bom dia”:
— Pode ter suas razões, mas trair a mamãe e jogar trinta anos no lixo? Isso é canalhice.
Sérgio não teve resposta.
O divórcio foi frio como julho em Curitiba — chuva e cerração nas janelas. O apartamento no Água Verde era dos dois. A casa de praia em Matinhos, idem. Sérgio queria a casa inteira. Ofereceu oitenta mil reais pela metade dela.
— Você nem gosta de praia. Só vai me atrapalhar.
Marta bateu os papéis na mesa.
— Oitenta mil? Aquela casa vale o dobro no mercado.
— Vai gastar com advogado, vai demorar… — começou.
— Não. — Ela se levantou. — Vou vender minha parte pra outra pessoa.
Em uma semana, Marta achou comprador: Otávio, empresário de Londrina, com filho pequeno e esposa sonhando em ter casa em que se ouve o mar. Vendeu a metade por cento e vinte e dois mil reais. Assinou o contrato no café da Praça Osório, com a caneta esferográfica azul que a advogada emprestou. Otávio fez a transferência na hora. Marta conferiu o saldo no celular e guardou o aparelho com as duas mãos — não devia mais nada a Sérgio.
O apartamento novo era pequeno, terceiro andar sem elevador, no Portão. Cozinha estreita, do tamanho de um corredor, mas inteira dela. Pintou as paredes de verde-sálvia. Pendurou cortinas amarelas — aquelas que Sérgio chamava de bregas. Adotou uma gata tricolor na feira de adoção do Parque Barigui e a batizou de Amélia. Amélia dormia em cima da pasta de contratos.
Três meses depois, num sábado chuvoso, o interfone tocou. Marta atendeu.
— Quem é?
— Marcinha, sou eu. Preciso falar contigo. — a voz de Sérgio saía esganiçada.
Ela abriu o portão. Sérgio subiu as escadas bufando, os ombros pingando. Na mão, um papel amassado — a cobrança de Otávio pela reforma do telhado da casa de praia. O banco tinha recusado a hipoteca porque metade do imóvel não pertencia mais a ele.
— Você me fudeu! — gritou, invadindo a sala. — A metade daquela droga de casa era minha! Agora o sócio manda conta e a Camila me largou porque vai faltar grana pra reforma!
Marta abriu a pasta, tirou o contrato, pousou na mesa.
— Sérgio, eu vendi o que era meu. Cento e vinte dois mil. Tá registrado. Não sou mais sua mulher pra te ceder metade do meu terreno e ainda bater palma.
Ele arrancou o papel. Marta não recuou.
— A Camila foi embora. Ela queria a casa com cheiro de mar, não você. — falou sem rancor, como quem lê um balanço. — Você perdeu as duas casas. Mas isso foi escolha tua.
Sérgio ficou parado, a respiração pesada. Quis responder, mas o ar saiu só como um sopro. Deu meia-volta e bateu a porta com força.
Marta sentou no sofá. Amélia pulou no colo. Ela se serviu do café que restava na garrafa térmica. Amargo, como as lembranças que ela insistia em revisar. Mas agora sabia o próprio endereço. E o telefone tocando, ninguém é obrigado a atender.












