O funk da Cida batia na porta antes mesmo de eu girar a chave. O Fubá latia como se alguém tivesse estourado um rojão dentro de casa. Eu tinha acabado de sair de uma reunião com fornecedor que me deixou com a artéria do pescoço pulsando; ainda segurava a chave do carro e o celular com quatorze chamadas não atendidas. Quando empurrei a porta, o vira-lata caramelo passou por mim disparado, voltou, rodou em círculos e latiu pro corredor.
Era sábado, meio-dia e quarenta. Em casa o combinado era quietude absoluta porque o Davi tinha cochilado depois da fisioterapia. Quietude, não. Parei no corredor e escutei o som vindo do quarto dele. Batidão pesado, daqueles que faz a janela tremer. E o Fubá pulando na porta fechada como se quisesse furar.
Abri a porta.
A Cida estava no meio do quarto segurando o Davi pelas axilas. Ela girava com ele, os pés dele arrastando no piso de tábua corrida. As pernas magras, cobertas por uma calça de moletom cinza, balançavam sem força. Mas o rosto do meu filho…
Eu não sabia que ele ainda sabia rir daquele jeito. Cabeça jogada pra trás, gargalhada solta, lágrima escorrendo. O Fubá pulava nas pernas dos dois, tentando lamber o rosto do Davi.
A Cida suava. O coque no alto da cabeça tinha desmoronado, mechas grudadas na testa. Ela gritou por cima do som:
— Agora a gente faz a curva, segura firme!
Meu estômago virou uma pedra. O Davi tem lesão na coluna. Dois anos e meio desde a queda no muro de escalada da academia. Qualquer torção errada, qualquer escorregão daquela mulher de quarenta e seis anos, e a medula podia sofrer uma nova compressão. Eu via o dinheiro gasto em fisioterapeutas, as noites no hospital, a promessa dos médicos de que a estabilidade era tudo. E a Cida rodopiando com meu filho como num baile de quermesse.
Pisquei três vezes. Depois gritei:
— Tira as mãos dele! Agora!
A Cida travou. O funk continuou tocando. O Fubá se encolheu atrás da cadeira de rodas.
Ela baixou o Davi na cadeira com um cuidado que me deu raiva, porque mostrava que sabia que estava fazendo algo errado. O Davi encolheu os ombros, puxou o capuz e virou o rosto pra janela. A gargalhada morreu na hora.
Peguei a caixinha de som em cima da cama e apertei o botão de desligar. O quarto ficou calado de um jeito pior do que o barulho. Dava pra ouvir a respiração da Cida, ofegante, e o Fubá ganindo baixinho.
— Você não pensa? — apontei pra cadeira, pra perna do Davi, pra porra toda. — Ele não pode ficar em posição vertical sem a órtese! Isso é proibido! Você podia ter quebrado meu filho!
— Seu Ricardo… — a Cida recuou até a parede. Esfregou as mãos no avental, deixando manchas de suor. — Ele me pediu pra mostrar como é dançar. Disse que nunca foi num baile, que nem sabe como é. A gente tava só brincando…
— Brincando? — Eu ri, mas foi um riso seco, de nervoso. — Você é cuidadora, não animadora de festa.
Tirei a carteira do bolso de trás. Contei oito notas de duzentos reais — mil e seiscentos. Amassei e joguei no chão, perto do pé dela. As notas bateram no rodapé e abriram.
— Tá aqui teu acerto. Some da minha casa em vinte minutos.
A Cida ficou parada, os olhos indo de mim pro Davi. Depois se agachou, catou as notas uma por uma, alisou uma que tinha dobrado no canto. Levantou, endireitou as costas e disse, pra mim, sem abaixar o queixo:
— O senhor tá errado. Mas se é assim, tá bom.
E saiu.
O Fubá, que nunca rosna pra ninguém, rosnou pra mim.
Na mesma semana contratei a Patrícia, técnica de enfermagem formada, mãos frias, agenda plastificada. Ela media pressão, fazia cinesioterapia passiva, dava vitamina D às oito da manhã. Falava baixo, mas cada palavra parecia carimbo.
O Davi não falava. Nem comigo, nem com ela. No começo eu pensei que era birra. Depois reparei que ele não pedia mais pra ir ao banheiro, só levantava a mão. Não pedia comida. A Patrícia anotava tudo numa prancheta.
O Fubá foi o primeiro a me dar o diagnóstico.
Ele parou de comer no segundo dia. A ração ficava cheia na vasilha, as bolinhas úmidas de baba. O cachorro deitava debaixo da cadeira de rodas do Davi e não saía nem quando eu oferecia biscoito de fígado. De noite, subia na cama do menino e deitava a cabeça no peito dele, como se ouvisse alguma coisa que eu não conseguia.
No quarto dia, o Davi estava deitado na mesma posição havia horas, encarando o teto. A Patrícia fazia os exercícios passivos e ditava:
— Dobra o joelho. Um, dois. Força, Davi. Agora a outra perna. Por que você não ajuda com os braços?
O menino nem piscava.
Encostei na porta e fiquei vendo. O Fubá levantou a cabeça, me encarou e gemeu, aquele gemido de cachorro que parece pergunta.
Naquela noite, abri a gaveta da cozinha onde tinha jogado a ficha da agência de cuidadores. Eu tinha rasgado o papel da Cida, mas tirei uma foto do endereço antes de amassar. Não, eu não tinha tirado. Tive que ligar pra agência e pedir a ficha de novo. A moça do outro lado perguntou se tinha acontecido algo grave. Eu disse que era pra devolver um brinco que a Cida tinha esquecido. Nem sei por que menti.
No dia seguinte, dirigi quarenta minutos até o bairro dela, na saída 12 da BR-050, zona leste de Uberlândia. Rua de terra, esgoto a céu aberto, cheiro de feijão cozinhando e de roupa secando no varal. Parei em frente ao portão azul desbotado. Dois cachorros magros latiram do outro lado. O Fubá tinha vindo comigo no banco de trás; ele colocou a cabeça pra fora da janela e respondeu com um latido curto.
A Cida abriu a porta com uma colher de pau na mão. O avental limpo, os chinelos de dedo.
— Seu Ricardo. Aconteceu alguma coisa com o Davi?
— Ele não fala, Cida. Não come. Não quer sair do quarto. — Não consegui encará-la; fiquei fitando o chão de cimento grosso, as unhas dos meus sapatos. — Eu vim te pedir desculpa.
Ela não disse nada. Só cruzou os braços.
— O senhor demorou nove dias. — A voz dela não era de vingança, era de tristeza. — Nove dias pra perceber que o seu filho precisa de mais do que uma prancheta.
— Eu tenho medo de perder ele, Cida. — Minha voz saiu rachada. — Os médicos disseram que qualquer erro pode piorar tudo.
— E quem disse que viver é erro? — Ela apontou com a colher pra dentro da casa. — O senhor acha que eu não tenho medo? Eu tenho um filho também. Sei o que é cuidar. Mas o Davi me disse uma coisa no segundo dia. Falou: “Cida, eu preferia ter morrido na queda do que ficar assim nessa cadeira, encarando o teto como uma planta.” O senhor quer um filho vivo ou um boneco encerado na sala?
Sentei num toco de madeira que servia de banco no terreiro. O Fubá pulou do carro e foi lamber a perna da Cida.
— Volta, Cida. Te pago o triplo. O Davi confia em você. — Minhas mãos tremiam; enrolei a corrente do portão entre os dedos.
— Não quero o triplo. Quero o combinado e uma coisa só: eu mando nas atividades do Davi. Se eu quiser botar música, eu boto. Se eu quiser levar ele pra lavar o Fubá no tanque, eu levo. O senhor não pode entrar no quarto pra me supervisionar. Fechado?
— Fechado.
Ela concordou com a cabeça, sem apertar minha mão. Voltou pra dentro, desligou o fogão e pendurou o avental no prego.
No outro dia, a Cida chegou às sete da manhã com uma sacola de pão de queijo e um bolo de fubá enrolado em pano de prato. O Fubá latiu no portão antes mesmo de ela tocar a campainha. Eu estava na sala, fingindo ler o jornal.
— Ô de casa! — ela gritou da cozinha, como se nunca tivesse saído. — Davi, vem cá, tem pão de queijo quentinho!
Ouvi o ranger da cadeira de rodas no corredor. Virei sem pressa a folha do jornal. O Davi apareceu, sem capuz, os cabelos armados, e foi pra cozinha. O Fubá foi atrás, rodando.
— Cida… — a voz do Davi saiu rouca. — Você voltou?
— Voltei, uai. E trouxe bolo de fubá. Mas primeiro a gente vai dar banho nesse cachorro, porque ele tá com cheiro de estrada.
O Davi riu. Foi um riso baixo, mas foi um riso.
Dobrei o jornal e fui pro escritório. A Cida falou do meu lado, enquanto o Davi e o Fubá se molhavam no quintal:
— Não vou dormir aqui, seu Ricardo. Mas vou voltar todo dia. E o senhor me paga no fim do mês, como antes. Combinado?
— Combinado.
Os meses passaram. A Cida levou o Davi pra feira, pra missa do bairro, pra cozinhar pamonha com a vizinha. Ela botava funk na caixinha de som e os dois dançavam — agora eu só ouvia do escritório. O Fubá deitava no tapete da porta, batendo o rabo no chão.
Um dia, no jantar, o Davi largou o garfo e disse:
— Pai, cê lembra quando a gente ia no kart naquela pista perto do aeroporto? O cheiro de gasolina, de pneu queimado… Eu queria ir de novo.
Mastiguei sem pressa. Lembrei. Mas a pista tinha escadas, banheiros estreitos, carros com pedal.
— A gente vê, filho.
No dia seguinte cancelei as reuniões. Fui até a prefeitura, depois no escritório de um arquiteto. Comprei um galpão desativado na saída pra Patrocínio. Não era uma pista comum: mandei alargar tudo, tirar qualquer degrau, instalar barras de apoio e pedir três karts com acelerador e freio no volante.
Seis meses depois, num sábado de sol, pedi pra Cida colocar o Davi na caminhonete sem dizer aonde a gente ia.
— Onde nós vamos? — ele insistiu.
— Cê vai ver.
Estacionei na frente do galpão. Dava pra ouvir motor roncando lá dentro. Abri a porta lateral e empurrei a cadeira do Davi. O cheiro de gasolina veio primeiro. Depois, o barulho.
Dentro, um menino de cabelo arrepiado, também de cadeira, freou na frente da gente:
— E aí, novato! Tá esperando o quê? Eu sou o Léo, aqui ninguém me ganha!
O Davi parou a cadeira. O Fubá, que tinha ido atrás, cheirou o pneu do kart e espirrou.
— Pai… isso tudo é nosso? — O Davi me encarou com um brilho que eu não via desde antes do acidente.
— É seu, filho. Vai pilotar.
Ele foi.
A Cida ficou parada do meu lado, com a mão no meu ombro. Eu não tirei os olhos do Davi ajeitando o capacete com a ajuda do Léo. O motor do kart número 7 roncou. O Fubá pulou no cercado e latiu duas vezes, feliz.
O Davi fez a curva fechada, cantou pneu e saiu acelerando. Eu não escutava mais a Cida, nem o vento. Só a gargalhada do meu filho, misturada com o escapamento.
O Fubá latiu de novo, e dessa vez ele tava certo.











