A dívida que o café não pagava

A geada cobria o terreiro da pousada quando Marilene Castro desligou o gerador da chácara pela quinta vez naquele mês. Fazenda das Araucárias, zona rural de São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul. O café da manhã dos hóspedes já estava frio e ela nem tinha energia para se desculpar mais uma vez.

Fazia três anos que um tombo do cavalo a tinha deixado sem o movimento das pernas. Desde então, cuidar dos animais da pousada — os dois burros, as galinhas, o cachorro Guri e, principalmente, os quatro cavalos de passeio que sustentavam o negócio — tinha virado tarefa de outras pessoas. Ela só dava ordens da cadeira de rodas, no corredor do estábulo, enquanto o capim crescia mais rápido do que o dinheiro entrava.

Era sábado de aniversário de sessenta anos de Seu Osvaldo Brum, dono das terras vizinhas e avô por adoção de Marilene — tinha criado ela desde os doze anos, depois que os pais morreram num acidente na BR-116. A festa reunia quase cinquenta pessoas no salão de eventos da pousada, luzes de mesa puxadas na gambiarra, e todo mundo fingindo que aquilo era uma celebração normal.

Foi quando o portão de madeira bateu com força.

Um rapaz entrou puxando pela corda um cavalo magro, de pelo embaraçado, com uma ferida mal cuidada na pata traseira. Roupa surrada, bota rachada, cheiro de estrada em cima dele.

— Quem deixou esse maluco entrar com um bicho doente na festa? — gritou alguém da mesa de bebidas.

— Chama a Brigada Militar, isso não pode — falou outra mulher, abanando a mão como se enxotasse mosca.

Dois seguranças contratados por hora para o evento vieram na direção dele. O rapaz não deu atenção a nenhum. Foi direto até a cadeira de Marilene, soltou a corda do cavalo e ficou parado diante dela.

— A senhora entende de cavalo mal tratado?

Marilene travou. Fazia tempo que ninguém chegava perto e perguntava alguma coisa que não fosse "precisa de ajuda para ir ao banheiro".

— Entendo mais do que gostaria — respondeu, olhando a ferida do animal. — Quem fez isso com ele?

— Comprei de um peão que ia mandar pro abatedouro clandestino, lá perto de Cambará do Sul. Dei mil e duzentos reais, tudo que eu tinha guardado. Ele tava pedindo mais.

Risos espalhados pela festa. Uma convidada de vestido estampado comentou, sem baixar a voz:

— Ela nem levanta da cadeira, como é que vai cuidar de cavalo doente?

O rapaz não se abalou.

— Eu trato da ferida, sei fazer curativo, minha mãe me ensinou. Mas quem sabe dizer se ele ainda presta pra ser montado é a senhora. Falaram que a senhora conhecia cavalo arisco melhor que ninguém nesta serra.

— Falaram errado, então, porque isso foi há muito tempo.

Seu Osvaldo, lá na ponta da mesa principal, baixou o copo e ficou olhando, sem entender o que aquele desconhecido queria com a neta adotiva dele.

Marilene baixou os olhos para as próprias mãos, apertadas no aro da roda.

— Não chego nem perto dele direito, meu filho. Cadeira não entra no curral.

— Então eu trago ele até aqui.

— E o que eu faço, examino com os olhos?

— A senhora faz o que conseguir.

O cavalo bufou e bateu a pata no chão de terra batida, puxando a cabeça para o lado. O rapaz segurou a corda mais curta, puxando-o na direção da cadeira, até o animal ficar a um metro dela, nervoso, orelha baixa.

Marilene estendeu a mão. O bicho recuou. Ela não puxou a mão de volta, só deixou parada no ar, e repetiu baixo:

— Calma, cumpadre. Calma.

Osvaldo se levantou da mesa, veio andando com a bengala, e ficou parado a um canto, de braços cruzados, olhando o cavalo com uma cara que Marilene conhecia bem — a cara de quem já tinha visto aquele tipo de ferida antes e preferia não lembrar.

O cavalo encostou o focinho na mão dela. Cheirou. Marilene fechou os dedos de leve em volta do beiço dele.

— Essa ferida tá infeccionando. Precisa limpar com água oxigenada, não com álcool, vai arder o dobro e ele não vai deixar chegar perto de novo.

— Eu só tinha álcool.

— Pois troca. E bota ele parado, numa baia sem corrente, se não a pata não cicatriza.

O rapaz assentiu com a cabeça, anotando aquilo como quem decora remédio de farmácia.

— A senhora ia saber examinar a pata de pé, ou só de longe assim?

Marilene olhou para a própria cadeira, depois para o braço do rapaz, que continuava parado ao lado dela, sem puxar, só esperando, do jeito que quem segura um portão esperando alguém decidir se vai passar.

— Faz tempo que eu não tento.

— Eu não vou levantar a senhora. Só seguro, se a senhora quiser tentar.

Ela apoiou as duas mãos nos braços da cadeira. Os braços tremeram primeiro, antes das pernas. Ficou meio segundo suspensa, o peso todo errado, e sentiu a perna direita formigar e falhar — não aguentou, e voltou a cair sentada, com força, batendo o cotovelo na roda.

— Porra — falou, baixo, sacudindo o braço dolorido.

Ninguém riu. Alguém na mesa de bebidas desviou o olhar, sem jeito.

— De novo — disse o rapaz.

— Não é de novo que resolve. Minha perna não responde, isso não é falta de vontade.

— Eu sei. Minha mãe também não respondia mais a perna direita, nos últimos dois anos que ela viveu. Ela levantava assim mesmo, três segundos, só pra trocar a fralda sentada no vaso em vez de deitada. Não ia curar nada. Mas ela fazia.

Marilene ficou calada, olhando pra ele.

— Tenta só os três segundos — disse o rapaz. — Não precisa andar até lá.

Ela apoiou de novo, mais devagar, deixando o peso cair primeiro no braço dele, depois dividindo com a perna esquerda, que ainda respondia um pouco. Ficou de pé, trêmula, a mão dele firme debaixo do cotovelo dela, e contou baixinho: um, dois, três. Na hora de sentar, as pernas falharam de novo, e ela desceu rápido, batendo a cadeira para trás com o impacto.

— Chega — disse, sem fôlego. — Chega por hoje.

— Deu pra ver a ferida?

— Deu. É funda, mas não chegou no osso. Dá pra salvar, se cuidar direito nas próximas duas semanas.

Seu Osvaldo se aproximou, apoiado na bengala, e olhou o rapaz de cima a baixo antes de falar.

— De onde é que você conhece a Marilene, moço?

O rapaz tirou do bolso da jaqueta uma foto velha, dobrada nas quatro pontas, e entregou pro velho, sem entregar pra Marilene primeiro.

— O senhor não conhece ela, mas talvez lembre da minha mãe. Dilma Fagundes. Trabalhou na cocheira da fazenda antiga, antes da dona Marilene nascer.

Osvaldo olhou a foto por um tempo longo, sem dizer nada, e depois passou a mão no rosto.

— Dilma. Claro que eu lembro. Foi embora de repente, um dia, sem avisar direito.

— Foi embora porque descobriu que tava doente e não quis dar trabalho pro senhor. Morreu há seis meses, em Cambará. Eu vendi o pouco que tinha pra pagar o enterro, e o que sobrou foi o que dei pelo cavalo.

— Por que não veio direto pedir ajuda, em vez disso?

— Porque ela nunca pediu nada a vida inteira, e eu não ia começar depois que ela morreu.

Osvaldo abriu a boca pra falar e não falou nada. Só pegou a mão do rapaz e apertou com força, sem soltar por um instante longo demais para ser só um aperto de mão.

A festa foi voltando ao normal devagar, alguém trocou a música, outro foi buscar mais cerveja, mas ninguém comentou mais em voz alta sobre o cavalo nem sobre a cadeira. Marilene ficou ali, perto do animal, até ele se acalmar de vez e abaixar a cabeça pra comer um resto de capim do chão.

— Esse bicho tem nome? — perguntou ela.

— Ainda não. Ia deixar pra senhora decidir, já que foi a senhora que salvou a pata dele.

— Decido depois. Agora bota ele na sombra, que esse sol de meio-dia não faz bem pra ferida aberta.

Na manhã seguinte, bem cedo, antes mesmo do gerador ligar, Marilene já estava no estábulo, de cadeira encostada na cerca que o rapaz tinha reforçado de madeira nova na noite anterior, sem ela pedir. Tadeu — assim ele disse que se chamava, só isso, sem sobrenome na primeira vez — já estava lá, limpando a ferida do cavalo com água oxigenada, do jeito que ela tinha mandado.

— Troquei o balde de ração também. Pus aveia com farelo, que o cara da loja disse que segura melhor no frio.

— Esse cara da loja te enrolou. Aveia pura engorda rápido demais pra cavalo que ainda tá fraco assim. Mistura com milho moído, bem pouco.

— Vou trocar, então.

Ela ficou olhando ele trabalhar, as mãos ainda tremendo um pouco de frio, e não disse mais nada por um tempo. Só quando ele terminou o curativo é que falou, sem olhar pra ele, olhando pro cavalo:

— Tu fica. Pelo tempo que precisar pra esse bicho sarar, e depois também, se quiser trabalho.

— Vou precisar de cama, então. Ando dormindo na carroceria da Kombi.

— Tem o quarto dos fundos, que era do meu pai. Mofado, mas tem cama.

— Serve.

Ela se virou com a cadeira, pegando o caminho de volta pra casa, e ele continuou com o curativo, sem acompanhar, sem agradecer em voz alta. Só quando ela já estava quase na porta da cozinha é que ele gritou atrás:

— Esperança.

Ela parou a cadeira.

— Quê?

— O nome do cavalo. Esperança.

Marilene ficou um segundo parada, olhando pra névoa que ainda cobria o pasto, depois virou a cadeira de volta pro estábulo.

— É meloso.

— É.

— Fica assim mesmo.

E continuou empurrando a cadeira pela trilha de terra gelada, enquanto atrás dela o cavalo mastigava o resto da ração errada, e Tadeu já ia buscar o milho moído certo antes que ela cobrasse de novo.

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