Beatriz Carvalho não se abrigou. Plantou-se no centro do salão, debaixo daquela luz amarelada que o Hotel Maringá insiste em chamar de "iluminação cênica", e deixou Thiago vir até ela com Camila agarrada no braço como um troféu de caça.
— Deixa eles olharem — disse ela, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.
Foi quando Rafael Dumont colocou a mão na cintura dela e beijou-a na frente de duzentas e oitenta pessoas.
Durou uns oito segundos. O suficiente para o sorriso de Camila desmontar e para o rosto de Thiago ficar da cor do mármore da escada.
— Você queria que esse salão achasse que a Beatriz tinha sido abandonada — disse Rafael, soltando-a, mas sem tirar a mão de perto. — Agora o salão entende que ela só foi liberada de um mau investimento.
— Que história é essa — Thiago gaguejou.
— Eu não jogo com patrimônio que me interessa.
A palavra "patrimônio" fez o estômago de Beatriz dar um salto, mas o polegar de Rafael roçou de leve na lateral do corpo dela, quase pedindo desculpa por usar aquele termo.
— Você não conhece ela — disse Thiago.
— Eu sei que ela montou a estratégia que salvou a Metalúrgica Andrade de uma concordata forçada em março. Sei que ela achou uma brecha fiscal que doze advogados sêniores tinham deixado passar. E sei que a estrutura de financiamento do seu projeto na Zona Portuária está perigosamente alavancada.
Aquilo não era mais teatro social. Era uma ameaça direta ao negócio.
— E sei que ela pediu para você ir embora — completou Rafael. — Aprenda a reconhecer uma resposta definitiva.
Camila puxou o braço dele.
— Vamos, Thiago.
Ele obedeceu sem discutir, coisa rara. A multidão abriu passagem de novo, mas agora olhando para ele como quem vê alguém saindo de um prédio segundos antes do desabamento.
Rafael guiou Beatriz até a saída. Débora, sua sócia, fez sinal de "me liga depois" com os lábios. Beatriz respondeu com um aceno mínimo.
Na rua, o vento de julho — frio, seco, atípico para Recife — levantou a pele dos braços dela. Um Audi A8 blindado esperava na calçada da Avenida Boa Viagem. Rafael tirou o paletó e colocou nos ombros dela. Cheirava a cedro e cigarro.
— Pode parar de fingir agora — disse ele.
— Fingir o quê?
— Que seu joelho não está tremendo.
— Não está.
— Está.
— Esse beijo não estava nos meus planos para hoje.
— Nem nos meus.
— Você beijou uma estranha na frente de trezentas pessoas.
— Você concordou.
— Por dez segundos.
— Foram nove.
Ela riu, surpresa com o próprio riso. Não ria assim desde que descobrira o caso de Thiago com a secretária do escritório de arquitetura.
Rafael abriu a porta traseira do carro.
— Meu motorista te leva pra casa.
— Eu tenho carro.
— Você bebeu espumante, e o Thiago vai atrás de você assim que recuperar o orgulho suficiente para exigir explicação.
Como se tivesse sido chamado, Thiago apareceu na porta do hotel naquele instante. Beatriz entrou no carro. Rafael entrou do outro lado. O carro arrancou antes que Thiago chegasse ao meio-fio.
Por alguns quarteirões, ela não falou nada. As luzes da orla passavam pelo vidro fumê em riscos dourados. Então o treinamento dela, dez anos advogando, falou mais alto.
— Eu cobro mil e duzentos reais a hora — disse. — Então me explica quanto essa cena acabou de me custar.
— Você está assumindo que eu quero um parecer jurídico.
— Homem como você nunca faz nada sem querer alguma coisa.
— Precisava que o Thiago ficasse assustado.
— Por quê?
— Porque ele está travando uma aquisição na orla que importa pra minha empresa.
— Então o beijo foi negócio.
— Em parte.
— E a outra parte?
Rafael a olhou por um segundo mais longo que o necessário.
— Não gosto de crueldade em público.
— Isso não é o que falam de você.
— As pessoas falam muita coisa quando não têm prova.
— Você já sabia quem eu era antes de hoje.
— Acompanho seus casos há dois anos.
A resposta a deixou desconfortável.
— Por quê?
— Porque preciso de uma advogada que saiba desmontar um homem financeiramente sem sair da lei.
O carro entrou na garagem privativa da Torre Dumont. Beatriz não se moveu quando o motorista abriu a porta.
— Você quer que eu ataque a empresa do Thiago.
— Eu quero que você faça a auditoria.
— Não é a mesma coisa.
— Vai ser, quando você vir os livros dele.
Rafael a levou por um elevador privado até o trigésimo oitavo andar. O escritório não tinha nada do covil sombrio que ela esperava — era vidro, aço, concreto polido, um silêncio disciplinado. Numa das paredes, uma maquete da Zona Portuária de Recife, com galpões, trilhos, armazéns e as docas marcadas com luzinhas brancas.
— A coalizão de investidores do Thiago quer transformar o porto em condomínio de luxo — disse Rafael. — Vão remover os armazéns, fechar o Sindicato dos Estivadores e desalojar quase seiscentas famílias.
— E você quer o terreno pra terminal de carga.
— Um terminal moderno, dois armazéns, centro de formação profissional e moradia popular. Meu projeto mantém os empregos do sindicato.
Beatriz estudou a maquete. Ouvira Thiago se vangloriar daquele projeto em jantares, chamando os moradores de "gente que deveria agradecer pelo cheque de realocação".
Rafael abriu uma pasta e empurrou na direção dela. Dentro havia registros públicos, decisões de zoneamento, contratos de financiamento e um mapa de empresas de fachada.
— O Thiago está usando ações ambientais pra travar minhas licenças — disse Rafael. — Ao mesmo tempo, está comprando terrenos no entorno por empresas que escondem a dele por trás.
— Nada disso é automaticamente ilegal.
— Não. Mas tomar empréstimo com a mesma garantia em bancos diferentes, sem declarar, é.
Beatriz ergueu os olhos.
— Isso é fraude bancária.
— Acredito que seja. Preciso que você confirme.
— Você já tem advogados.
— Tenho advogados cautelosos. Preciso de um honesto.
— Advogado honesto não usa informação obtida numa relação pessoal como arma.
— Não estou pedindo que você revele sigilo. Estou pedindo que examine registro público e documento obtido por via legal.
— E se eu recusar?
— Meu motorista te leva pra casa. As fotos de hoje ainda te protegem da campanha social do Thiago, e nunca mais nos falamos.
Nenhuma ameaça. Nenhuma pressão. Só uma escolha.
Beatriz olhou o mapa de novo. Lembrou de Thiago rindo quando ela avisou que a estrutura de financiamento dele parecia instável. "Você se preocupa demais," ele tinha dito. "Homem assume risco. Advogado é quem limpa."
Talvez ele estivesse confessando sem saber.
— Minhas condições — disse ela. — Nenhuma violência. Nenhum documento roubado. Nenhuma intimidação de testemunha. Eu controlo a estratégia jurídica. Se eu encontrar crime, eu decido como vai ser denunciado.
— Aceito.
— E você nunca mais me beija sem perguntar.
Algo mudou no olhar dele.
— Aceito.
Beatriz fechou a pasta.
— Me manda a proposta de contrato até às oito de manhã.
Rafael estendeu a mão. Ela apertou. Firme, quente.
— Bem-vinda à guerra, doutora Carvalho.
— Isso não é guerra.
— O que é, então?
Ela olhou de novo para a rede de empresas do Thiago.
— Reestruturação.
Às nove da manhã, todo mundo no escritório de Beatriz já sabia do beijo. Às dez, a história tinha virado "namoro secreto há meses". Às onze, uma estagiária perguntou se os seguranças de Rafael iriam à festa de confraternização.
Beatriz ignorou tudo. Um envelope cor de creme esperava na mesa dela. A proposta de Rafael tinha vinte páginas, bem escrita, quase ofensivamente generosa — dobrava o valor da hora dela e trazia cada limite ético que ela tinha exigido. Encontrou um erro de digitação no item 14, repetindo a palavra "garantias" duas vezes seguidas. Riscou com a caneta, corrigiu à mão e assinou às 11h14.
Às 11h16, o sócio-diretor Hélio Barros entrou na sala e fechou a porta.
— Me diz que você não fez isso.
— Aceitei a Dumont Participações como cliente.
— O Thiago me ligou às seis da manhã.
— Sinto muito por ter interrompido o sono dele.
— Ele diz que você tá indo atrás da empresa dele por causa do fim do namoro.
— O Thiago não é cliente daqui. Não tem conflito.
— É o Rafael Dumont, Beatriz.
— Conheço o nome dele.
— Você tá trazendo um homem perigoso pra dentro deste escritório.
— Não. Estou trazendo um cliente com um problema jurídico e capacidade de pagar nossos honorários.
Hélio fitou o contrato assinado.
— Ele vai te usar.
— Então ele vai se decepcionar.
— E quando o Thiago estiver destruído?
Beatriz se recostou na cadeira.
— Se a empresa do Thiago pode ser destruída por uma advogada lendo registro público, o problema dele não sou eu.
Hélio travou o maxilar, sem resposta. Beatriz colocou um segundo papel na mesa. Era sua demissão.
— Vou abrir meu próprio escritório. A Dumont vai ser minha primeira cliente. Meu último dia é sexta.
Na segunda, o escritório Beatriz Carvalho Advocacia já ocupava meio andar na Torre Dumont — ela pagou o aluguel a preço de mercado, recusando o espaço de graça que Rafael tinha oferecido. Contratou Débora como diretora de operações, trouxe duas associadas de confiança e fechou contrato com uma perícia contábil independente.
Rafael não interferia. Passava uma vez por dia, deixava um café preto na mesa dela — sempre com açúcar demais, ela nunca corrigiu — e perguntava:
— O que você precisa?
Às vezes a resposta era extrato bancário. Às vezes era arquivo de zoneamento. Uma vez, às duas da manhã, ela disse que precisava de silêncio, e ele desapareceu por seis horas sem reclamar.
Quanto mais ela estudava os negócios de Thiago, mais feio ficava. A construtora dele tinha tomado empréstimo com garantia em três galpões através de um banco, transferido o controle para empresas de fachada e usado os mesmos galpões como garantia em outros bancos. As assinaturas eram do Thiago. Mas várias dessas empresas listavam Camila como sócia principal.
— Ela é o escudo dele — Beatriz disse numa reunião tarde da noite. — Se a fraude aparecer, o caminho leva até ela.
Rafael estava de pé perto da janela, mangas arregaçadas.
— Ela sabe?
— Não sei.
— Ela entrou sorrindo naquela festa.
— Ser cruel não faz dela criminosa. Estou separando fato de sentimento. É meu trabalho.
— Você está defendendo ela.
— Estou entendendo o Thiago.
— Isso parece pior.
— É.
A investigação mudou Beatriz também. Ela foi até a Zona Portuária, falou com estivadores, comerciantes, famílias que moravam ali havia gerações. O plano de Thiago classificava as casas delas como "área degradada".
Rafael conhecia muita gente pelo nome. Parou para conversar com uma vendedora de peixe, dona Zefinha, sobre a cirurgia do marido, e aceitou um pedaço de queijo coalho assado que ela insistiu em dar de graça. Lembrou o aniversário da filha de um operador de guindaste.
— Você esperava monstro com taco de baseball — Rafael disse, enquanto caminhavam na beira da água.
— Eu esperava medo.
— Tem medo.
— Não deles.
Ele olhou para os trabalhadores descarregando um camião.
— Meu pai construiu poder fazendo gente ter medo. Aprendi que gente assustada obedece até aparecer alguém mais assustador. Gente leal fica.
— É assim que você justifica tudo?
— Não. É assim que explico o que eu mudei.
Rafael raramente falava da família. Naquela tarde, com o vento de Boa Viagem batendo, ele contou. O pai dele controlava os negócios com suborno e ameaça. Quando Rafael tinha vinte e dois anos, um incêndio num armazém matou dois operários porque o prédio tinha reprovado na inspeção. O pai pagou fiscal pra esconder o laudo. Rafael entregou os documentos ao Ministério Público. O pai morreu antes do julgamento, e a família nunca perdoou Rafael por escolher estranhos em vez do próprio sangue.
— E você herdou o império mesmo assim — disse Beatriz.
— Herdei a parte que mais ninguém sabia operar.
— E os rumores?
— Alguns são verdade. A maioria é velha. Nenhum te serve.
Beatriz parou de andar.
— Preciso saber se meu cliente está cometendo crime.
Rafael a encarou.
— Precisa saber se eu estou pedindo pra você cometer um. Não estou.
— Essa não era minha pergunta.
— Não. Era um pedido de confissão.
O maxilar dele travou. Beatriz se aproximou.
— Você me contratou porque eu não desvio o olhar. Não pode admirar isso só quando é contra o Thiago.
Ele ficou calado por um instante, depois disse, baixo:
— Você tem razão.
A admissão a surpreendeu mais do que qualquer raiva teria. Rafael entregou o celular a ela.
— Liga pro meu diretor de compliance. Pede toda auditoria interna dos últimos dez anos. Acesso total até de manhã.
— Você deixaria eu te investigar?
— Já te dei permissão de ir embora. Prefiro te perder porque você achou a verdade do que te manter escondendo ela.
— Me perder como advogada?
Os olhos dele não se desviaram.
— Não.
Antes de ela responder, o celular tocou. Thiago. Ela rejeitou. Tocou de novo. Depois uma mensagem: *Precisamos falar antes que o Rafael te machuque.*
Ela bloqueou o número.
Naquela noite, alguém vazou as fotos da festa para um site de fofoca. A manchete chamava Beatriz de "advogada despeitada buscando proteção no homem mais temido de Recife". Thiago deu uma declaração anônima dizendo que ela tinha ficado instável depois do fim do namoro.
Rafael entrou na sala dela com um tablet.
— Posso derrubar a matéria.
— Não.
— É difamação.
— Eu sei.
— Minha equipe pode achar a fonte.
— A minha também.
Ela abriu um processo por difamação na manhã seguinte. O processo deu a ela acesso legal às comunicações de Thiago com o site — a própria tentativa dele de humilhá-la abriu caminho para a produção de prova.
Três dias depois, Camila apareceu no escritório. Vestia jeans, casaco cinza, sem maquiagem. Sem o vestido e o sorriso de festa, parecia mais nova do que vinte e três anos.
— Chamo a segurança? — Débora perguntou da porta.
— Não — disse Beatriz. — Fecha a porta.
Camila colocou um pen drive na mesa.
— O Thiago usou meu nome em empresas que eu nem entendo.
Beatriz não tocou no objeto.
— Você tem advogado?
— Não.
— Então você não devia falar comigo.
— Por favor. — A voz de Camila quebrou. — Ele disse que os papéis eram pra questão de imposto. Eu assinei porque ele disse que isso provava que eu confiava nele.
Beatriz lembrou de ter assinado documentos para Thiago durante o noivado — seguro de casamento, acordo de bens, declaração de investimento. Ela tinha lido cada linha. Camila provavelmente não lera nenhuma.
— O que mudou? — perguntou Beatriz.
— Ontem ele me disse que, se desse errado, eu teria que dizer que criei as empresas. Disse que ninguém ia acreditar em mim em vez dele.
— Você sabia de mim quando o caso começou? — perguntou Beatriz.
Camila baixou os olhos.
— Sabia.
A resposta doeu, mas não como teria doído meses antes.
— E a festa?
— Ele disse que você estava causando problema com investidor. Disse que precisávamos mostrar pra todo mundo que você estava obcecada por ele.
— As palavras sobre eu estar "instável" foram suas?
Camila começou a chorar.
— Ele mandou eu dizer.
Beatriz empurrou a caixa de lenço pela mesa.
— O que você fez foi cruel — disse. — Ter sido manipulada não apaga isso.
— Eu sei.
— Mas o Thiago pode ter usado você pra cometer crime. Você precisa de advogado independente e precisa guardar toda mensagem, documento e conta que ele te deu.
— O Rafael vai machucar ele?
— O Rafael não controla essa investigação. Eu controlo.
Camila a olhou como se aquela resposta assustasse mais do que qualquer ameaça. Beatriz conseguiu um advogado para Camila e entregou o pen drive por canal formal. Os arquivos mostravam Thiago mandando Camila assinar declaração falsa, esconder notificação de banco e apagar e-mail. Mostravam também algo pior: Thiago tinha pago um fiscal da prefeitura para atrasar as licenças da Dumont Participações. O rastro do dinheiro era claro.
Beatriz levou tudo a Rafael naquela noite. Ele leu em silêncio.
— Suas condições continuam valendo — disse ele. — Nenhuma violência.
— Nenhuma ameaça.
— Denunciamos ao Ministério Público Federal.
— Sim.
— Você não está com raiva?
— Estou furioso.
— Não parece.
Rafael pousou os papéis com cuidado, as mãos um pouco rígidas demais para o gesto simples. O fiscal que Thiago comprou tinha atrasado reformas de segurança num dos terminais mais antigos. Duzentos operários passaram mais um inverno trabalhando com equipamento deteriorado porque Thiago queria vantagem na negociação. A mão de Rafael se fechou.
Beatriz ficou ao lado dele.
— Não vira o que as pessoas acham que você é.
— Isso é ordem da minha advogada?
— Não.
— O que é, então?
Ela pôs a mão sobre o punho fechado dele até os dedos relaxarem.
— Um pedido da mulher que você beijou.
— Posso beijar ela de novo?
— Sim.
Esse beijo não teve público. Nem estratégia. Rafael tocou o rosto dela como se ela fosse algo poderoso o bastante para machucá-lo. Quando se separaram, ele encostou a testa na dela.
— Isso não foi negócio — disse.
— Não.
— Que bom.
Trinta e dois dias depois da festa, Thiago Andrade entrou numa sala de mediação no centro de Recife ainda achando que tinha algo a negociar. Chegou com quatro advogados, dois consultores financeiros e a cadeira vazia de Camila atrás dele.
Beatriz chegou com uma pasta. Rafael veio sozinho.
Thiago parecia mais velho. O terno pendia solto nos ombros, olheiras escuras marcavam o rosto. Encarou Beatriz do outro lado da mesa.
— Cadê a Camila?
— Com o advogado dela.
— Você virou ela contra mim.
— Não. Seus e-mails fizeram isso.
Um dos advogados de Thiago se inclinou.
— Estamos aqui pra discutir as liminares do porto, não desavença pessoal.
Beatriz abriu a pasta.
— Estamos aqui porque a sua construtora deu default em três empréstimos comerciais, violou dois contratos de divulgação e usou a mesma garantia pra conseguir financiamento em bancos diferentes.
Colocou três pastas encadernadas na mesa. Thiago não tocou.
— Isso é intimidação.
— Isso é contabilidade.
— Vocês não tinham direito de acessar meus registros.
— Você me deu esse direito quando me difamou anonimamente. Produção de prova é interessante, Thiago. Devia ler o que seus advogados assinam.
Os advogados começaram a examinar as pastas. A sala foi ficando mais silenciosa a cada página.
— Suas empresas em paraíso fiscal escondiam dívida dos bancos — continuou Beatriz. — As transferências de imóvel foram fraudulentas. Suas comunicações com o fiscal da prefeitura provam suborno. Suas instruções pra Camila provam obstrução de justiça.
Thiago ficou branco.
— Você está bluffando.
Rafael falou pela primeira vez.
— Se ela estivesse bluffando, você ainda teria investidor.
Thiago o olhou com odio puro.
— Você fez isso porque queria minha terra.
— Eu quis sua terra antes de saber seu nome — disse Rafael. — Você se destruiu tentando provar que era importante o suficiente pra me parar.
Beatriz empurrou um documento pela mesa.
— Isso é um acordo de recuperação judicial supervisionado pelo juiz. A sua construtora entrega o terreno do porto aos credores. A Dumont Participações compra os ativos pelo valor aprovado em laudo, assume a dívida legítima e financia a proteção de realocação exigida pela prefeitura.
— Você está pegando tudo.
— Não — disse Beatriz. — Os bancos estão pegando tudo. O Rafael está comprando o que resta.
Thiago bateu na mesa.
— Você acha que isso te faz poderosa? Você é empregada dele. Ele usou sua humilhação pra te transformar em arma.
— Você achava que humilhação me fazia frágil. Esse foi seu erro.
— Eu te amava.
— Não. Você amava ser admirado por mim.
— Eu te fiz quem você é.
Rafael se moveu de leve, mas Beatriz tocou o braço dele por baixo da mesa. Não precisava de proteção ali.
— Você me apresentou gente rica — disse Beatriz. — Me levou pra festa. Pôs seu sobrenome ao lado do meu no convite de casamento. Nada disso me fez advogada. Nada disso construiu minha carreira. E nada disso te deu posse sobre mim.
Thiago olhou para os próprios advogados.
— Façam alguma coisa.
O advogado sênior fechou a pasta.
— Precisamos de defesa criminal separada.
— Eu pago vocês pra me representar.
— O senhor paga nosso escritório pra cuidar de assunto empresarial. Esses documentos indicam crime federal.
Thiago empurrou a cadeira para trás. A porta abriu antes que ele chegasse lá. Dois agentes da Polícia Federal estavam no corredor. Atrás deles, Camila, acompanhada do próprio advogado.
Thiago congelou.
— Você — ele falou, a voz rachando no meio da palavra.
As mãos de Camila tremiam.
— Você pôs meu nome em tudo.
— Eu te dei uma vida.
— Você me deu acusação que esperava eu assumir no seu lugar.
Thiago deu um passo na direção dela. Rafael se levantou. Não tocou em Thiago. Não ameaçou. Só se posicionou entre ele e as duas mulheres. A diferença de porte bastou. Thiago parou.
Um dos agentes entrou na sala.
— Senhor Andrade, temos mandado de prisão por fraude bancária, corrupção e obstrução de justiça.
O som metálico das algemas preencheu a sala. Thiago encarou Beatriz enquanto o agente o segurava pelo braço.
— Isso é porque eu te deixei.
— Isso é porque você achava que toda pessoa na sua vida existia pra te proteger de consequência.
Os agentes o levaram pela porta.
— Beatriz — disse Thiago baixinho. — Por favor.
— Você precisa de um advogado. Um criminalista.
E o viu sair.
Camila ficou perto da janela, enxugando o rosto com a manga do casaco.
— Me desculpa — disse a Beatriz. — Não por ele ter sido pego. Me desculpa pelo que eu fiz com você.
— Eu acredito em você.
— Não espero perdão.
— Que bom, porque perdão não é atalho pra fugir de responsabilidade. Mas uma escolha terrível não precisa virar a sua vida inteira. Colabora com a investigação. Fala a verdade. Depois constrói algo que não dependa de ser escolhida por um homem como o Thiago.
Camila olhou para Rafael.
— Foi isso que você fez?
— Não. Eu me escolhi primeiro.
Na frente do fórum, a imprensa ocupava a escada. A notícia da prisão já corria. Os flashes dispararam quando Beatriz e Rafael saíram juntos.
— Doutora Carvalho, seu relacionamento com o senhor Dumont fez parte da investigação?
— Senhor Dumont, o senhor usou conexão de facção pra destruir a construtora do Thiago Andrade?
— Vocês estão noivos?
Rafael parecia pronto pra seguir andando, mas Beatriz parou nos microfones.
— A prova contra o senhor Andrade foi obtida por via legal e entregue à Polícia Federal — disse ela. — O terreno do porto vai ser transferido por processo judicial supervisionado. Não houve ameaça nem violência de nenhuma parte.
Um repórter gritou: — O Rafael Dumont salvou a senhora do Thiago Andrade?
— Não. Eu nunca estive esperando ser salva. O senhor Dumont reconheceu minha capacidade num momento em que todo mundo estava focado na minha humilhação. Ele abriu uma porta. Eu decidi se ia atravessar.
Saiu dos microfones. Rafael entrou com ela no carro. Com as portas fechadas, ele a olhou.
— Eu abri uma porta?
— Ficou mais profissional do que dizer que você me beijou na frente de trezentas pessoas pra assustar meu ex.
— Funcionou.
— Foi arrogante.
— Você concordou.
— Por dez segundos.
— Nove.
Ela riu, recostando-se no banco.
Seis meses depois, Beatriz inaugurou o primeiro prédio novo da Zona Portuária — um centro de formação profissional, não o condomínio de luxo que Thiago tinha planejado. A antiga comissão de festas montou o baile de inverno ali dentro, entre as máquinas de treinamento e os painéis elétricos ainda com etiqueta de fábrica. Muita gente que tinha assistido à humilhação de Beatriz na festa de julho agora se aproximava com cuidado, elogiando o trabalho dela, pedindo cartão de visita.
No fim da noite, Beatriz saiu pro terraço de frente pro mar. Rafael estava encostado na grade, casaco preto, um copo de whisky intocado na mão.
— Você desapareceu — disse ele.
— Precisava de ar.
— Está ansiosa?
— Um pouco.
Ele estendeu a mão. Ela aceitou. Lá dentro, a banda começou uma música lenta, desafinada no refrão — ninguém pareceu notar.
— Você construiu isso — disse Beatriz, olhando pro prédio iluminado.
— Nós construímos.
— O terreno era seu.
— Você fez valer a pena ser dono dele.
Por meses, Rafael tinha pedido pra ela morar na cobertura dele. Por meses, ela recusou, dando a mesma desculpa esfarrapada da escala de trabalho até ele parar de perguntar e simplesmente deixar uma chave em cima da mesa dela, sem dizer nada.
Naquela noite, Beatriz tirou a chave da bolsa.
— Isso é uma rendição? — perguntou Rafael.
— Não. É uma sociedade.
Colocou a chave na mão dele e fechou os dedos em volta.
— Essas são mais complicadas.
— Sou advogada. Gosto de contrato complicado.
— Quais são seus termos?
— Meu escritório fica independente.
— Aceito.
— Nenhum segurança dentro da cozinha.
— Negociável.
— Não.
— Aceito.
— Você me pergunta antes de tomar decisão que muda minha vida.
Ele assentiu.
— E você? O que eu recebo?
— A verdade, mesmo quando você não gosta. Minha lealdade, enquanto você merecer.
— E?
Ela olhou através do vidro pro salão cheio de gente. Depois voltou o olhar pra ele.
— E isso.
Beatriz o beijou. Teve público de novo — gente notou pela janela, celulares se levantaram. Quando se separaram, Rafael tirou um pingo de chuva fina do cabelo dela.
— Deixa eles olharem — murmurou.
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