A voluntária Beatriz tinha vinte e três anos e já pensava que conhecia todo tipo de pedido estranho no abrigo Patas Felizes, em Niterói. Gente que queria filhote pequeno, gente que queria "cachorro que não solte pelo", gente que queria "fêmea tranquila, criança em casa". Um rapaz uma vez pediu um animal "com cara de triste, pra postar no Instagram". Mas aquela senhora na recepção, segurando uma bolsa de pano gasta, pediu uma coisa que Beatriz nunca tinha ouvido antes.
— Eu preciso de um cachorro bem velho.
— Velho como, assim? — Beatriz perguntou, meio sem entender.
— O mais velho que vocês tiverem. Dez anos, doze. Quanto mais velho, melhor.
A mulher ficou parada ali, de tênis surrado e casaco de moletom desbotado nos cotovelos. Cabelo grisalho preso num coque apertado, uma mecha solta caindo na testa. Rosto calmo, sem sorriso, mas também sem tensão — rosto de quem sabe exatamente por que entrou naquele lugar.
— Só um minuto, vou chamar a Dona Célia — disse Beatriz, e foi correndo pros fundos.
Célia Nascimento, dona do abrigo há dezoito anos, estava picando frango pra ração da tarde quando Beatriz entrou falando rápido.
— Tem uma senhora lá na frente pedindo o cachorro mais velho que a gente tiver.
Célia parou a faca na tábua.
— O mais velho?
— Isso mesmo. Ela disse que quanto mais velho, melhor.
— Estranho. Chama ela aqui.
A mulher se chamava Dalva Ferreira. Sentou na cadeira da sala de Célia, pôs a bolsa no colo e cruzou os dedos ressecados, com unhas curtas e rachaduras nos nós dos dedos — mãos de quem lava, esfrega, cava terra, cuida.
— Dona Dalva, a senhora sabe que cachorro idoso dá mais trabalho, né? — Célia falou com cuidado. — Gasto com veterinário, ração especial, quase sempre tem alguma doença crônica. Articulação, rim, coração. Não é fácil e não é barato.
— Eu sei.
— A senhora já teve experiência com bichos?
— Já.
— Pode me contar?
Dalva olhou pela janela, pro corredor de canis cobertos de telha e um pedaço de muro com tinta verde descascando. Lá fora, dava pra ouvir o trânsito da BR passando.
— Hoje eu tenho o Duque. Ele tem catorze anos. Vira-lata grandão, pelo enroladinho. Peguei ele num abrigo de Petrópolis há dois anos. Iam sacrificar porque ele tem artrose nas patas de trás e ninguém queria. Antes do Duque teve o Tico, cego dos dois olhos, catarata avançada. Peguei ele com onze anos, ficou um ano e meio comigo. Antes do Tico teve a Baleia, uma vira-lata idosa com displasia no quadril. Fiquei com ela oito meses.
Falava tudo calma, sem drama, como quem lê lista de compras. Mas dizia cada nome um pouco mais devagar que o resto da frase. Como se desse mais um segundo de existência pra cada um.
Célia tirou os óculos.
— Então a senhora escolhe cachorro idoso de propósito?
— Isso.
— Posso perguntar por quê?
Dalva olhou pra ela direto. Olhos castanhos, calmos, sem desafio e sem explicação pedindo desculpa.
— Porque ninguém mais vai pegar. Todo mundo quer filhote. Ou cachorro jovem, no máximo três anos. E o velho fica lá no canil esperando. Sem entender por quê. Passou a vida toda amando alguém, dormindo aos pés de alguém, correndo até o portão quando a pessoa chegava. Depois acaba aqui. O dono morreu, ou mudou de cidade, ou simplesmente decidiu que já bastava. E o que resta pra esse cachorro, talvez um ano, talvez dois. Eu não quero que esse tempo seja no chão de cimento.
A sala ficou quieta. Dava pra ouvir, atrás da parede, um cachorro latindo baixo, ritmado, sem raiva nenhuma. Só de tédio, de tristeza mesmo.
— Vem comigo — disse Célia, se levantando. — Quero te mostrar uma coisa.
Os canis ficavam em duas fileiras, telhado de amianto, cheiro de ração e cloro. Chovia a noite toda e tinha poça acumulada nas marcas de roda do carrinho que levava comida. Os cachorros reagiam diferente: os jovens corriam pra grade, choramingavam, enfiavam o nariz nos vãos entre as barras. Um macho magro, de rabo cortado, ficava batendo a pata na grade, insistente, como quem bate numa porta trancada.
Dalva ia olhando sem pressa. Nos filhotes nem desacelerava o passo.
Célia parou no penúltimo canil.
— Essa aqui é a Mel. Treze anos. Chegou há um mês. O dono faleceu, a filha disse "não posso ficar com ela, meu filho tem alergia". Deixaram numa caixa de geladeira no corredor da prefeitura.
Mel estava deitada no canto, num pedaço de papelão. Grande, pelagem castanho-avermelhada, orelhas caídas com manchas de fulvo, olhos meio turvos. A boca estava toda branca, do nariz até a testa, como se tivesse levado uma farinhada. As patas de trás ficavam dobradas num ângulo estranho, dava pra ver que levantar custava esforço. Ao lado, uma vasilha de água intocada.
Dalva se agachou na frente da grade.
— Mel.
A cadela ergueu a cabeça. Não se levantou. Só olhou. Olhos molhados, cansados, com um vermelho nas escleróticas. O rabo deu uma batida só, pesada, forçada, e parou.
— Ela tem problema de rim — Célia falou baixo. — E coração. Cardiomiopatia. O veterinário falou que é um ano, no máximo um ano e meio. E isso com remédio todo dia e cuidado bem de perto.
Dalva não se virou. Ficou ali olhando pra Mel, e Mel olhando pra ela. Depois a cadela se levantou nas patas da frente com esforço visível, arrastou as de trás e deu três passos até a grade. Encostou o nariz nas barras. O nariz estava quente e seco.
Dalva passou os dedos pela grade e acariciou a cadela entre os olhos, bem devagar, como quem acaricia criança dormindo. Mel fechou os olhos.
— Eu levo ela — disse Dalva.
A papelada levou meia hora. Beatriz preenchia os formulários, carimbava, olhava pela janela de vez em quando pra Dalva, que esperava sentada num banco no quintal com Mel na guia. A cadela ficou encostada na perna dela, imóvel, só o nariz se movendo — cheirando o joelho, a bainha do casaco, o cadarço do tênis, os dedos que repousavam nas costas dela.
— Dona Célia — Beatriz chamou baixinho. — Ela é normal mesmo? A senhora, digo.
Célia foi até a janela e olhou pro quintal.
— Mais que normal, Bia.
— Mas por que ela quer cachorro velho? Eles vão morrer logo, né? Dói sempre. A gente se afeiçoa e depois acaba tudo.
Célia ficou quieta um momento, braços cruzados.
— Sabe, eu tô há dezoito anos nesse abrigo. Vi centenas de pessoas. Chegam, escolhem, levam. Metade liga um mês depois: "pode pegar de volta, ele destrói o sofá." Ou "a gente mudou de cidade, não dá pra levar." Ou simplesmente para de atender o telefone. Essa mulher ali, ela não escolhe o fácil. Ela pega quem já foi abandonado por todo mundo. Quem ninguém nem olha mais. Isso, Bia, é outra coisa completamente.
Beatriz baixou os olhos e não respondeu. Assinou a última folha, pôs a data e saiu pro quintal.
— Dona Dalva, está tudo certo. Aqui a receita dos remédios da Mel. O veterinário escreveu o esquema: comprimido pro rim de manhã e à noite, com comida. O do coração uma vez por dia, em jejum. E retorno em duas semanas, com a gente ou com algum veterinário de sua confiança.
Dalva pegou os papéis, dobrou com cuidado e guardou na bolsa. Tirou de lá uma coleira velha — larga, acolchoada, de lona surrada, com fecho pesado. Trocou na Mel.
— Essa fica mais confortável pra ela. Não aperta o pescoço. Eu compro assim pra todos os meus.
Beatriz ficou olhando as duas saírem. Dalva andava devagar, acompanhando o passo curto e arrastado da cadela. No portão, parou, se abaixou e ajustou a coleira. Disse alguma coisa baixinho, só com os lábios, que Beatriz não conseguiu ouvir. Mel levantou a cabeça grisalha e lambeu a mão dela. As duas saíram e viraram à direita, rumo ao ponto de ônibus.
Um mês depois, Célia recebeu uma mensagem. Uma foto: Mel deitada num cobertor xadrez grosso, patas estendidas. Ao lado, uma vasilha d'água e um pato de pelúcia velho, faltando um olho. A boca ainda branca, mas os olhos mais claros. Mais limpos. Sem aquela névoa que tinha no canil. O rabo saiu borrado na foto — provavelmente estava abanando.
Embaixo da foto, o texto: "A Mel se acostumou. Na primeira semana ficava com medo, encolhida na parede. Depois subiu na minha cama de madrugada e desde então dorme ali, mesmo eu arrumando o lugar dela no chão. Adora que arranhem a orelha direita. A esquerda ela não deixa, deve estar doendo. Os rins estão estáveis, o veterinário ficou contente. O Duque se acostumou com ela, não tem ciúme. Ficam os dois deitados na varanda quando dá sol. Obrigada por tudo."
Célia leu. Leu de novo. Guardou o celular e ficou olhando pro teto, onde se espalhava uma mancha antiga de vazamento. Na mesa, estava a lista de cachorros pra transferir pro outro galpão. Vinte e três nomes. Idades entre dois e cinco anos. Jovens, fortes, com boas chances. Cada um com sua história, sua esperança.
No fim da lista, escrito a lápis, estava Barão. Catorze anos, macho, vira-lata, trazido de um apartamento depois da morte da dona. Surdo do ouvido esquerdo. Anda devagar. Come pouco. No campo "interesse de visitantes" — um traço.
Célia pegou o celular e escreveu: "Dona Dalva, chegou aqui um cachorro chamado Barão. 14 anos, quieto, calmo. Quando puder, me avisa."
A resposta veio em quatro minutos. Não em uma hora, não no dia seguinte. Em quatro minutos: "Estou aí no sábado. Vou preparar o cantinho dele."
Célia sorriu. Guardou o celular no bolso do jaleco. Atrás da parede, Barão latiu baixinho. Pra ninguém. Só pro vazio, do jeito que cachorro velho late quando sonha com alguma coisa. Alguma coisa do passado, de quando a casa ainda era casa, e não só lembrança.
Dalva chegou no sábado, como tinha dito. Entrou no abrigo às dez em ponto, com o mesmo tênis, a mesma bolsa. No rosto, a mesma expressão tranquila. Beatriz a recebeu na entrada. Quis falar alguma coisa, mas acabou só acenando com a cabeça e indicando o terceiro canil. No caminho, não resistiu.
— Dona Dalva, posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Não é difícil pra senhora? Quando eles… vão embora?
Dalva seguia andando, sem apressar o passo. Os tênis chapinhavam nas poças conhecidas.
— É difícil.
— E mesmo assim a senhora continua pegando novo?
— Mesmo assim.
Beatriz ficou calada um instante. Depois, baixinho:
— Por quê?
Dalva parou. Se virou pra Beatriz e olhou pra ela com calma, sem mágoa, sem grandiloquência.
— Quando a Baleia estava morrendo, ela ficou no meu colo, num lençol limpo, e eu fiquei acariciando a cabeça dela a noite inteira. Ela podia ter morrido aqui, no canil, num pedaço de papelão. Sozinha. Eu sofri depois. Até hoje sofro quando lembro. Mas ela não sofreu. Ela ficou em paz. Eu vi isso nos olhos dela, na respiração, no jeito que relaxou as patas. Não é sobre mim, Beatriz. É sobre eles.
Beatriz desviou o olhar e passou a mão rápido nos olhos. Depois falou, já com voz de trabalho normal:
— Vamos. O Barão está esperando.
Barão estava deitado no canto do canil, escuro, pesado, barriga caída e uma barba grisalha no queixo. Não se levantou ao ver as pessoas. Ergueu uma orelha, a direita, a boa, e olhou com aquela expressão que cachorro velho tem quando já não espera mais nada, mas ainda não deixou de notar.
Dalva se agachou junto à grade. Tirou da bolsa um pedaço de frango embrulhado num guardanapo. Estendeu pela grade. Barão cheirou. Pegou com cuidado, com os beiços moles, como quem pega algo frágil. Mastigou devagar.
Dalva acariciou a testa dele. Pelo grosso, pele quente, calosidades de velhice perto das sobrancelhas.
— Pronto — disse Dalva, baixinho. — Vamos pra casa.
Três anos depois, Mel já não estava mais ali — morreu numa tarde de domingo, no colo de Dalva, no mesmo lençol de sempre, dezesseis anos de vida e um ano e dez meses com ela, exatamente como o veterinário tinha previsto, e nem um dia menos do que Dalva lutou para conseguir. Barão seguia na varanda, agora com dezessete, surdo dos dois lados, mas ainda levantando o nariz quando sentia o cheiro da comida chegando. E foi nessa tarde de domingo, três anos depois daquela primeira visita ao abrigo, que Célia recebeu outra ligação — não mensagem, ligação mesmo, coisa rara pra Dalva.
— Célia, eu queria te pedir uma coisa. Não é sobre cachorro.
— Fala.
— Eu tenho sessenta e seis anos. Não sou nova. E queria deixar uma coisa resolvida, pra não dar trabalho pra ninguém depois.
Dalva foi até o abrigo na terça seguinte, com uma pasta azul debaixo do braço — não a bolsa de pano de sempre, uma pasta de plástico, comprada na papelaria da esquina por doze reais. Dentro, um documento que o advogado dela tinha redigido na semana anterior: uma doação em vida de oito mil reais, o que restava da poupança do marido falecido, destinada exclusivamente ao custeio veterinário de cães com mais de dez anos no abrigo Patas Felizes. Não pros filhotes, não pra reforma do telhado, não pra ração geral. Só pros velhos. Na cláusula, o nome que ela escolheu pro fundo: "Fundo Baleia, Tico e Mel."
— Não é pra mim que eu quero isso — falou, empurrando a pasta pela mesa até Célia. — É pra quando eu não puder mais vir. Pra ter dinheiro pro remédio de coração, pro exame de rim, pros que ninguém olha. Assina aqui também, pra ficar registrado no abrigo, não só no cartório.
Célia leu o documento duas vezes. Depois olhou pra Dalva, que esperava sentada, mãos cruzadas, do mesmo jeito que na primeira vez que entrou naquela sala.
— A senhora não precisa fazer isso agora, Dalva. A senhora tem o Barão, tem…
— Eu sei o que eu tenho. E sei o que vai faltar quando eu não estiver mais aqui pra buscar. Esse dinheiro fica, pra sempre, pros cachorros que a idade já condenou antes de qualquer doença. Assina.
Célia assinou. Trouxe o carimbo do abrigo, passou na última página, e as duas ficaram ali, uma de cada lado da mesa, com a pasta azul entre elas e o barulho de um cachorro latindo baixinho atrás da parede — não de raiva, só do jeito que latem os velhos, pra um sonho qualquer que ainda insiste em voltar.
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