Zeca Fontoura tinha cinquenta e oito anos e cuidava da reserva ambiental perto de Urubici, na Serra Catarinense, desde os vinte e nove. Ficou viúvo há seis anos, quando a Neusa morreu de infarto, e depois disso praticamente parou de descer até a cidade. Os dois filhos moravam em Florianópolis, cada um com sua vida, e ele ficou só mesmo com a casa de madeira na beira da mata e o trabalho que, àquela altura, já era mais do que emprego — era a única coisa que fazia sentido levantar da cama por.
Toda manhã era igual. Botas de cano alto, a espingarda que ele quase nunca usava — servia mais pra afastar caçador clandestino do que qualquer outra coisa — e a ronda pela trilha. Checava se tinham derrubado araucária sem autorização, se turista tinha deixado fogueira apagada mal ou lixo espalhado, se a chuva da semana anterior tinha soltado alguma pedra no paredão. Era função do Ibama, mas na prática era ele, sozinho, com o cachorro Tigrão correndo na frente e voltando de vez em quando pra ver se o dono não tinha ficado atrás.
Naquela quinta-feira de julho o frio cortava, com aquela cerração grudada nas árvores que é comum na serra no inverno. Zeca seguia a trilha de sempre quando chegou perto do paredão do Rio do Bode, um ponto que ele conhecia de cor — e também sabia que era traiçoeiro. A pedra ali esfarelava fácil, principalmente depois de chuva forte.
Foi quando ouviu.
No começo achou que era o vento batendo numa fenda da rocha. Mas o som voltou, baixinho, quase um gemido. Chegou mais perto da beirada e esticou o pescoço pra ver o que tinha lá embaixo.
Tinha uma onça-parda pendurada numa saliência da pedra, a uns quatro metros do fim do precipício.
O bicho segurava com as patas da frente, o corpo todo arqueado, a parte de trás já balançando no vazio. Uma das pernas traseiras estava torta, quase sem movimento, e tinha sangue seco escorrido pelo pelo do flanco.
Ela tentava se puxar, mas não tinha força. A cada tentativa, um punhado de pedregulho soltava e caía no abismo junto com ela quase indo atrás.
A onça viu o Zeca.
Arreganhou os dentes, rosnou baixinho e tentou dar um tapa no ar com a pata livre. Mas no olho amarelo dela não tinha raiva — tinha era pavor puro.
Zeca entendeu a conta na hora: se ele desse as costas, em menos de um minuto aquele bicho estaria morto lá no fundo do cânion.
Deitou de barriga na terra gelada, bem na beirada, e esticou os dois braços pra baixo.
— Calma, bicho… calma…
A onça se contorceu, as garras raspando na pedra sem achar apoio. Zeca agarrou as patas dela com as duas mãos e sentiu o peso: aquilo não era um gato, era um animal de quarenta quilos pendendo pro lado errado da gravidade.
As pedras rangiam debaixo do peito dele. Terra solta escorregava pro vazio. Um movimento brusco da onça e os dois iam junto, lá pra baixo.
O bicho se debatia, rosnava, batia a pata traseira ferida contra a rocha. Duas vezes o corpo inteiro ficou pendurado de novo, e Zeca teve que travar o braço com tudo que tinha pra não soltar.
Foi tirando ela de centímetro em centímetro.
Os cotovelos escorregavam no barro úmido, as mãos iam ficando duras de frio e esforço, o fôlego faltava. Teve um momento em que achou que não ia dar — que o corpo dele ia ceder antes do dela.
A onça escorregou de novo, uns dez centímetros pro lado de fora, e ele quase a perdeu ali mesmo.
Zeca enterrou a ponta da bota numa fenda da pedra, trincou o queixo e deu o último puxão com tudo.
O corpo pesado veio de uma vez só por cima da beirada. A onça rolou na terra e, na mesma hora, tentou se arrastar pra longe dele, respirando fundo, a pata machucada arrastando sem forças.
Zeca se afastou do precipício de joelhos e sentou numa pedra pra recuperar o ar, esperando que o bicho fugisse mancando pro mato — ou pulasse em cima dele pra se defender.
Mas não foi nenhuma das duas coisas.
A onça ficou parada a três metros dele. Não rosnava mais. Só respirava pesado, as costelas subindo e descendo rápido, fixa no homem que tinha acabado de puxá-la da morte. Tigrão, o cachorro, veio correndo pela trilha e parou de repente ao ver a cena, rosnando baixinho mas sem se aproximar.
Zeca não se moveu. Trinta anos de mata tinham ensinado uma regra que ele nunca quebrava: nunca confiar em bicho selvagem assustado, não importa o quanto ele pareça manso.
— Vai, pode ir — falou baixo, achando que ela ia fugir assim que juntasse coragem.
Mas a onça não foi.
Ela se arrastou mais perto — um metro, depois menos — e parou de novo, deitando o corpo todo torto de lado, a perna ferida exposta pra cima. Um gesto que, pra quem conhece bicho, só quer dizer uma coisa: submissão, pedido de ajuda.
Zeca sentiu o peito travar. Aquilo não era comportamento de onça-parda adulta e selvagem. E foi então que ele notou o que tinha passado batido: ela era magra demais pra idade, tinha uma marca de corte limpo numa orelha — marca de brinco que tinha sido arrancado, não de luta — e, mais abaixo no flanco, o resquício esbranquiçado de uma cicatriz antiga que não era de garra nenhuma. Era corte cirúrgico. Aquele bicho já tinha passado pela mão de gente.
Ele puxou o rádio preso no cinto e chamou o posto do Ibama em Urubici, pedindo pra localizarem se algum centro de manejo da fauna da região tinha perdido animal recentemente. A resposta veio em vinte minutos: uma onça-parda fêmea, chamada Mel no cadastro, tinha escapado de um recinto de reabilitação havia onze dias, depois de uma cerca cair com o temporal. Estava sendo tratada ali desde filhote, resgatada de um criador clandestino em Lages — doze anos antes — e nunca tinha conseguido ser solta de volta pra natureza porque não sabia caçar sozinha. Vivia dependente de gente pra comer.
Zeca ficou ali, de joelhos na terra fria, olhando pra aquela fêmea ferida que tinha se arrastado até perto dele em vez de fugir, e entendeu: ela não tinha fugido da mata pra voltar a ser selvagem. Tinha fugido assustada com o temporal, se perdido, se ferido no caminho, e passado onze dias tentando sobreviver num lugar que não era o dela — até cair naquele paredão.
A equipe de manejo chegou quatro horas depois, com uma caixa de transporte e um veterinário. Mel foi sedada com cuidado, a perna foi imobilizada ali mesmo na trilha, e ela voltou pro centro de reabilitação em Lages naquela mesma tarde. A fratura, segundo o laudo veterinário, custaria cerca de três meses de recuperação e um valor de internação que passava dos dois mil reais — pago pelo próprio centro, que vivia de doação.
Zeca foi visitá-la quarenta e dois dias depois, quando o veterinário avisou que ela já reconhecia cheiro e podia receber visita controlada. Encontrou a onça deitada no recinto maior, a perna ainda engessada, mas o pelo mais cheio, o corpo mais tranquilo. Quando ele se aproximou da grade, ela levantou a cabeça e ficou com os olhos fixos nele, sem rosnar.
Ele não entrou no recinto — sabia que não devia, nunca faria aquilo com um animal selvagem, mesmo um que já tinha deitado aos seus pés uma vez. Ficou do lado de fora, sentado numa cadeira de plástico branca que o próprio centro mantinha ali pra visitantes, só acompanhando o jeito dela de respirar, mais devagar agora, sem aquela urgência de quem luta pra sobreviver. Não precisava de mais nada além disso.
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