Ainda me pego pensando em como não consegui ver antes quem a Larissa realmente era. Talvez porque eu tivesse estado ao lado dela nos piores momentos da vida dela. Talvez porque eu a considerasse família. Ou talvez porque às vezes basta um minuto para descobrir que uma amizade de doze anos não vale nada.
Eu me chamo Fernanda, tenho trinta e quatro anos, trabalho como assistente administrativa numa clínica odontológica em Sorocaba, e quando a Larissa me pediu para ser madrinha do casamento dela, nem pensei duas vezes.
— Eu não consigo fazer esse casamento sem você — ela me disse por telefone, numa terça de manhã, enquanto eu ainda tomava café antes de ir pro trabalho.
Sorri.
— Nem precisa pedir. Tô aqui.
Eu não tinha a menor ideia de que, no mês seguinte, minha vida ia girar quase inteiramente em torno daquele casamento. O celular tocava quase todo dia. Às vezes era sobre as flores. Às vezes sobre a decoração das mesas. Sobre os convidados. Sobre as lembrancinhas. Sobre a cor dos laços das cadeiras. Sobre o buffet. Sobre o repertório da banda. Sobre qualquer coisa. Se surgia um problema, eu era a primeira pessoa que ela ligava.
Depois do trabalho, eu ia direto pro apartamento dela, em Campolim. Colávamos adesivo até tarde da noite. Refazíamos listas. Negociávamos com fornecedores. Buscávamos encomendas. Embalávamos lembrancinhas. Conferíamos o esquema das mesas. Nos fins de semana eu nem ficava mais em casa.
Meu marido, o Cássio, me olhava às vezes sorrindo, sentado no sofá com o controle da TV na mão.
— Parece que é você que vai casar, não a Larissa.
Eu ria.
— Mais um pouquinho e acaba.
Mas ele via algo que eu me recusava a notar.
Numa noite, depois que cheguei em casa quase meia-noite, ele me encontrou colando as últimas etiquetas dos convidados na mesa da cozinha. Pôs um prato de comida na minha frente.
— Você comeu hoje?
Dei de ombros.
— Quase nada.
Ele sentou do meu lado.
— Fernanda… você pode dizer "não" também, de vez em quando.
Sorri, cansada.
— Ela tá estressada. Depois do casamento tudo volta ao normal.
Cássio não insistiu. Ele sabia o quanto aquela amizade importava pra mim.
A única coisa que me pesava era o presente. Nos últimos meses o dinheiro não andava sobrando. O Fiesta tinha dado defeito na embreagem e a conta do conserto veio salgada. Em cima disso, tinha chegado uma cobrança inesperada do plano de saúde, de um exame que o convênio não cobriu inteiro. A gente tava tentando recompor as economias que tínhamos gastado naquela fase ruim.
Mesmo assim, eu não queria ir ao casamento da minha melhor amiga com um presente qualquer, comprado de última hora numa loja de departamento. Toda semana eu guardava um pouco. Deixei de sair pra tomar chope com as colegas da clínica. Adiei a compra de um tênis que eu já precisava trocar há meses. O Cássio ficou mais um tempo com o chinelo velho, mesmo com a sola quase descolando.
No fim, conseguimos. Na noite anterior ao casamento, ele colocou na mesa cinco notas de cem reais.
Fiquei olhando por alguns segundos sem dizer nada. Pra outras pessoas, quinhentos reais talvez não fossem muita coisa. Pra nós, eram semanas inteiras de aperto, de contas apertadas, de café sem açúcar pra render o pacote até o fim do mês.
Coloquei o dinheiro num envelope bonito, daqueles com acabamento dourado na borda. Escrevi algumas linhas, do coração, desejando felicidades, lembrando de tudo que a gente tinha passado junto desde a época da faculdade. Dormi tranquila. Tinha certeza de que a Larissa ia entender o quanto aquele gesto significava.
O dia do casamento foi lindo. Num espaço de festas na Zona Norte da cidade, tudo saiu exatamente como ela tinha planejado. As flores. A decoração. As mesas. As velas. Os detalhes em que eu tinha trabalhado quase todas as noites daquele mês. Olhando pra tudo aquilo, eu sentia que as noites perdidas tinham valido a pena.
A recepção começou num clima ótimo. Os convidados riam, a música tocava baixinho ao fundo, todo mundo parecia feliz. Em certo momento, a Larissa subiu no pequeno palco montado perto da pista e pediu o microfone. Sorria, animada.
— Eu tive uma ideia! — ela disse. — Vamos abrir agora mesmo todos os envelopes, pra agradecer pessoalmente cada um de vocês!
Os convidados aplaudiram. Eu troquei um olhar com o Cássio, do outro lado da mesa. Não sei explicar por quê, mas foi a primeira vez naquele dia inteiro que senti um aperto no estômago.
Ela começou a abrir os envelopes, um por um. Agradecia, fazia piadinha, os convidados aplaudiam depois de cada um. Envelope atrás de envelope. Até que ela pegou um creme, com acabamento dourado na borda. Reconheci na hora. Era o nosso.
Ela abriu. Tirou as notas. Contou devagarinho, dedo por dedo, pro microfone não perder nenhum detalhe. Levantou o olhar pra mim e, com o microfone na mão, sorriu de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
— Olha só — ela falou, segurando as cinco notas de cem erguidas, quase como se fossem um troféu. — Quinhentos reais. Da minha madrinha. Da minha melhor amiga de doze anos.
Riu, meio sem jeito proposital, olhando pros convidados como quem já sabia o efeito que ia causar.
— Depois de tudo que ela trabalhou nesse casamento, achei que ia abrir e ter, não sei, uns dois mil, três mil… Mas tá tudo bem, gente, intenção é o que conta, né?
Algumas pessoas riram sem jeito. Outras só ficaram olhando pra mim, esperando minha reação. A tia do noivo, numa mesa próxima, soltou um "ai, que mico" baixinho, mas audível. Senti o rosto esquentar. O Cássio levantou da cadeira antes que eu conseguisse me mover.
Não gritou. Não fez cena. Caminhou até o palco com aquele jeito calmo que ele tem quando está mais irritado do que parece, pegou o microfone da mão da Larissa com um "com licença" seco, e olhou pros convidados.
— Só pra constar — ele disse — essas cinco notas de cem representam dois meses de economia da gente. A Fernanda deixou de comprar as próprias coisas pra garantir esse presente. E, fora o dinheiro, ela organizou essa festa inteira de graça, noite após noite, enquanto a Larissa decidia a cor do laço da cadeira.
Devolveu o microfone, sem esperar resposta, e voltou a sentar do meu lado, pegando minha mão por baixo da mesa.
A Larissa ficou ali, segurando o microfone mudo, o sorriso desmontando devagar no rosto. Tentou rir, falar alguma coisa sobre "brincadeira", mas a música de fundo já tinha sido cortada pelo DJ, sem ninguém pedir, e o silêncio da sala só deixou mais claro o tamanho daquilo.
Eu me levantei. Não briguei, não chorei na frente de ninguém. Peguei minha bolsa, a sacola com o sapato reserva que eu tinha trazido pra trocar depois da cerimônia, e fui até a mesa de presentes. Catei o envelope creme de volta, ainda aberto, com as cinco notas dentro, guardei na bolsa e me virei pra sala.
— Parabéns pelo casamento, Larissa — falei, num tom neutro, sem gritar. — Mas esse presente aqui eu levo de volta. Não é falta de generosidade. É porque generosidade se dá pra quem sabe receber com respeito.
Saímos de mão dada, eu e o Cássio, antes mesmo do bolo. No carro, ele me perguntou se eu tava bem. Falei que sim, e falei a verdade: nunca tinha me sentido tão leve saindo de uma festa.
Três dias depois, usei aquele dinheiro — o mesmo dinheiro, as mesmas cinco notas — pra pagar a entrada do novo par de tênis do Cássio e um jantar simples, só nós dois, numa pizzaria perto de casa. Apaguei o número da Larissa do celular na mesma noite, sem drama, sem mensagem de despedida. Doze anos de amizade resumidos num bloqueio de contato e num prato de pizza de calabresa dividido ao meio.
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