O vestido amarelo que a Dona Zilda nunca jogou fora

Quando vocês veem a gente sentada no banco da praça, cabelo branco, sacola de feira no colo, mãos quietas, pensam que sempre fomos assim. Sossegadas. Vovós de novela, que falam baixo e guardam bala de goma na bolsa. Mas vocês não viram as moças que fomos.

Não viram as pernas na minissaia que a Dona Aparecida do quarto andar chamava de "vergonha", nem a bota de cano alto, nem o cabelo armado com laquê que gastava o vidro inteiro num sábado. Não viram a gente descendo a Rua da Consolação de sandália baixa, achando que nenhuma calçada de São Paulo era grande demais pros nossos pés.

Eu me chamo Zilda, fiz 74 anos em março, e moro no mesmo bairro do Ipiranga desde que casei. Fui moça numa época em que ser mulher era ouvir, o tempo inteiro, o que a gente não podia fazer. Não fala alto. Não volta tarde. Não se veste assim. Não sonha demais.

E mesmo assim, eu quis mais.

Escutava Roberto Carlos e Rita Lee no rádio de pilha com o volume tão alto que minha mãe batia na parede do quarto com o cabo de vassoura. Dançava em quermesse de igreja onde alguém empurrava as mesas pra abrir espaço, e namorava sem saber quando ia chegar a próxima carta, porque carta demorava dias — e eu ficava no portão esperando o Seu Osvaldo, o carteiro, de bicicleta, com aquela pasta de couro surrada.

Guardo até hoje, numa caixa de sapato debaixo da cama, um vestido amarelo que não uso mais desde 1979 e um punhado de cartas amareladas, quase sem cheiro nenhum. Foi minha neta, a Bia, quem mexeu nessa caixa semana passada — e o jeito como ela mexeu foi o que me tirou o sono.

Ela tem dezenove anos, mora comigo desde que a mãe dela se mudou pro Rio a trabalho, e vive reclamando que eu sou "careta demais" pra idade dela. Discutimos por bobagem quase toda semana: o volume da minha novela, o horário que ela chega, o jeito que ela olha pro celular na hora do almoço como se eu não existisse. Na sexta-feira ela entrou no meu quarto atrás de uma caixa pra guardar uns desenhos da faculdade e pegou a minha por engano.

Cheguei da feira e a porta do quarto estava entreaberta. Empurrei devagar e vi ela sentada no chão, as cartas espalhadas ao redor feito um baralho, lendo a que tinha a letra mais tremida — a que eu tinha escrito borrada de tanto perfumar com o Phebo de baunilha da minha mãe.

— Bia, isso é meu.

Ela levantou a cabeça rápido, como quem é pega roubando.

— Desculpa, vó. Eu vi um nome, "Nelson", e não consegui parar de ler.

Fiquei ali parada no vão da porta um tempo maior do que devia, com vontade de recolher tudo, fechar a caixa, guardar de novo debaixo da cama e fingir que aquilo não tinha nome nenhum. Mas ela estava seguranda a carta mais antiga com as duas mãos, cuidando pra não rasgar, e isso me segurou.

Entrei, sentei na cama e puxei do armário o vestido amarelo, ainda dentro do saco plástico da lavanderia. Contei que usei esse vestido na festa de quinze anos de uma prima, em Uberaba, e que um rapaz chamado Nelson me chamou pra dançar três músicas seguidas até minha mãe quase me arrastar embora pelo braço.

— O que aconteceu com ele?

— Foi embora pra São Paulo atrás de emprego. Eu já tinha conhecido seu avô quando a última carta dele chegou. Nunca respondi.

A Bia ficou olhando o vestido, depois pra mim, como se estivesse tentando encaixar as duas imagens numa pessoa só.

— Eu achava que a senhora nunca tinha sido jovem que nem eu.

Contei o resto: os nomes de cada carta, o Fusca emprestado que rodava a Zona Leste inteira sem destino certo, a separação do meu primeiro marido em 1975, que no interior de Minas rendeu fofoca de mês inteiro. Contei os erros também — o namorado que não me merecia, o sonho de estudar que larguei porque alguém disse que já era tarde. Ela não me interrompeu nenhuma vez. Só ficou ali, sentada, virando as cartas devagar entre os dedos.

No sábado fomos juntas numa loja de fotografia perto da Avenida São João e escaneamos as vinte e três cartas pra guardar num pendrive — ela fez questão, disse que não queria que aquilo sumisse quando eu não estivesse mais ali pra contar. Separei o vestido amarelo numa sacola, escrevi um bilhete com o nome dela e a data, e falei que agora era dela, pra usar ou só guardar, do jeito que quisesse.

Ela pegou a sacola com uma mão e, com a outra, abraçou a caixa de sapato inteira contra o peito. Ficou um bom tempo ali, sem falar nada, só respirando.

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O vestido amarelo que a Dona Zilda nunca jogou fora