O gato que caiu do oitavo andar e o envelope que mudou tudo

Ronaldo Teixeira sempre quis um filho homem. Tinha até escolhido o nome: Theo. Mas a vida resolveu de outro jeito, e em vez de um menino, ele e a esposa Patrícia criaram três meninas em um apartamento de três quartos no bairro de Boa Viagem, em Recife.

— Olha que sorte a nossa, três mulherzinhas lindas — Patrícia repetia sempre, rindo.

Ronaldo sorria de volta. Amava as filhas, isso nunca foi questão. Mas de vez em quando, quando via o vizinho jogando bola com os dois filhos na quadra do condomínio, sentia uma pontinha de inveja que preferia não admitir em voz alta.

— Para de bobagem, Ronaldo — dizia o amigo Juca, seu parceiro de churrasco de sábado. — Sua Bia faz jiu-jítsu, já ganhou medalha. Bate em moleque que é uma beleza.

E era verdade. Beatriz, a mais velha, tinha dez anos e um gancho de direita que já havia deixado um coleguinha de orelha vermelha. As gêmeas Lavínia e Manuela, sete anos, não ficavam atrás em energia — a diferença é que preferiam destruir a casa com outros métodos.

O grande sonho das três, havia meses, era um bichinho de estimação.

— Nem pensar. Não aguento cachorro latindo o dia inteiro — cortava Ronaldo toda vez que o assunto surgia.

— Gato arranha o sofá. Hamster fede. Periquito grita mais que vocês três juntas — ele ia descartando, um a um.

As meninas faziam beicinho, emburradas.

— A Clarinha do 302 tem dois cachorros! E não aconteceu nada de mal com a casa dela! — reclamava Beatriz, batendo o pé no chão.

O pai era irredutível.

— A gente dá um jeito — garantia Lavínia, a gêmea que nunca desistia de nada.

Faltavam dois dias para o aniversário de Ronaldo — trinta e nove anos — e as três estavam reunidas no quarto de Beatriz, discutindo o presente.

— Cueca? Kit de barbear?

— Que ideia mais sem graça! A mãe falou que tem que ser inesquecível.

— Então pensa você, já que é tão esperta! A gente faz um cartão e pronto!

— Isso é coisa de criança de berçário! Precisa ser uma surpresa de verdade.

A discussão já ia pelos vinte minutos e começava a esquentar quando o celular de Beatriz tocou.

— Bia, vocês desceram o lixo? — perguntou Patrícia do outro lado.

— Já desceu, mãe, pode ficar tranquila — mentiu a menina, sem pestanejar.

— Você já está voltando pra casa?

Confirmado que a mãe ainda demoraria, as três saíram correndo do apartamento.

— A gente vai junto! — gritaram as gêmeas.

— Pra descer um saco de lixo as três? — Beatriz cruzou os braços, impaciente.

Mas cinco minutos depois lá estavam as três, descendo de elevador, rumo à lixeira dos fundos do prédio.

— Escutaram isso? — Manuela parou de repente. — Vem dali, perto da caçamba.

Um miado fraco, desesperado, vinha de dentro do container. As meninas se entreolharam e correram até lá.

— Não pode ter um gato aí dentro — murmurou Beatriz, incrédula, já tirando sacos de lixo de cima.

As gêmeas ajudaram, fazendo cara feia pro cheiro. O bicho, sentindo que a ajuda estava chegando, soltou um miado ainda mais aflito.

— Será que ele pula em cima da gente quando a gente achar? E por que não sobe sozinho, ficou preso? — resmungava Beatriz, debruçada na beirada da caçamba.

A resposta veio alguns minutos depois: um saco plástico bem amarrado, de dentro do qual vinha o chiado.

— Que absurdo é esse. Colocaram um gato dentro de um saco e jogaram no lixo! — Beatriz estava indignada, desamarrando o nó com cuidado.

Dentro, um gato vermelho, tremendo de medo.

— Que lindo, e tão manso — Manuela recebeu o bicho nos braços, apertando-o contra o peito. O gato se agarrou nela na hora, as garrinhas fincadas no tecido da blusa.

— O que é isso, pivetes? Lixo espalhado na calçada toda! Vou contar pros seus pais! — a voz de dona Zuleide, a síndica, ecoou pelo pátio.

Discutir com dona Zuleide não adiantava nada — a mulher, apesar da idade, já vinha a passos firmes na direção delas.

— Corre! — comandou Beatriz.

As três dispararam para o elevador, os gritos da síndica ainda ecoando atrás delas.

— Acho que escapamos — Manuela respirou fundo, fechando a porta do apartamento.

— Duvido. Ela vai contar. Lembra quando quebramos o vidro do hall? No mesmo dia já tinha fofocado pro papai — lembrou Beatriz.

Enquanto isso, Ronaldo voltava do trabalho de bom humor, pensando no fim de semana e no aniversário que se aproximava. Na esquina da rua, perto da padaria, uma cigana se aproximou dele.

— Um presente inesperado te espera, meu filho. Vai rir, vai se surpreender — disse ela rapidamente, tocando o braço dele antes de sumir entre as pessoas.

"Agora as cigana tão inventando moda nova", pensou Ronaldo, sem dar muita importância, e seguiu para casa.

Em casa, a reunião secreta continuava.

— E a mãe, o que ela vai dar de presente? Descobriram? — perguntou Beatriz.

— Perguntei, mas ela disse que é surpresa — respondeu Lavínia.

Isso era estranho. Normalmente Patrícia sempre preparava o presente do marido junto com as filhas.

— Eu vi ela guardando uma coisa num envelope — disse Manuela, cutucando a ponta do lençol, pensativa. — Será que é aquela viagem pra Porto de Galinhas que eles sempre falam?

— Pode ser. Mas o nosso presente também vai ser demais. E inesquecível — Beatriz riu.

— O importante é ele não descobrir antes da hora — Lavínia levou o dedo aos lábios.

A campainha tocou. Patrícia e Ronaldo haviam chegado.

— Vocês estão quietas demais hoje. Confessem logo o que aprontaram dessa vez — disse Patrícia, olhando desconfiada para as três.

As meninas garantiram que estava tudo em ordem.

— Até o lixo a gente desceu! — Beatriz se gabou.

— Que bom. E por que o banheiro está todo molhado? — a mãe estranhou, indo até a pia.

— Desculpa, mãe, fui lavar uma blusa e molhei tudo — Manuela abaixou os olhos.

— Não tem um dia de paz nessa casa! — Ronaldo riu, estava de bom humor demais pra desconfiar de alguma coisa.

As três foram dormir sem reclamar, o que já era suspeito.

— Olha só como estão comportadas hoje. Devem estar aprontando minha surpresa — sorriu Ronaldo, dando um beijo na esposa.

— Mais parece a calmaria antes da tempestade — Patrícia respondeu, desconfiada. Conhecia bem demais as filhas.

Durante a madrugada, um barulho veio do quarto de Beatriz. Quando os pais foram checar, encontraram Lavínia na cama da irmã.

— Tive um pesadelo, mas já passou. Posso dormir aqui com ela? — perguntou baixinho.

Patrícia e Ronaldo concordaram, sem desconfiar de nada, e a noite seguiu tranquila.

No dia do aniversário, Ronaldo dormiu mal, sonhando com a cigana de olhos verdes. Quando finalmente abriu os olhos, congelou: bem no meio do peito dele estava sentado um bicho vermelho, encarando-o fixamente.

— Miau — cumprimentou a criatura.

— AAAAH! — o grito de Ronaldo ecoou pelo apartamento inteiro.

Patrícia levantou num pulo, tentando entender o que estava acontecendo.

— Mas que — gaguejou o aniversariante, olhando para o gato que já tentava se aninhar nos pés dele.

Beatriz entrou no quarto, fingindo tranquilidade.

— Ô pai! Já achou nosso presente!

Atrás dela vieram as gêmeas.

— Feliz aniversário, paizão! A gente quis te dar um presente inesquecível. Esse é o Lulu. Super calmo, educado. Já tá aqui há dois dias e vocês nem perceberam. Os sofás continuam intactos e o papel de parede também — as três falavam ao mesmo tempo, atropelando uma a outra.

Patrícia caiu na gargalhada, vendo o marido sem reação, a mão ainda no peito.

— Fica tranquilo, pai. A mãe já vai te dar aquele presente no envelope e vocês vão descansar bem longe da gente. A gente se vira aqui — disparou Beatriz.

— Que envelope? Espera, meninas — Patrícia olhou intrigada para as filhas.

— Mas o presente no envelope não é a viagem? Eu vi você guardando — Manuela correu em defesa da irmã.

Patrícia riu, nervosa.

— Parece que não dá pra esconder nada nessa casa — admitiu, por fim.

— E agora, o que eu faço com esse bicho? — Ronaldo perguntou, perdido, olhando o gato ronronar baixinho encostado na sua perna.

As meninas se entreolharam.

— Pai, foi sem querer. A gente desceu o lixo e achou o gato dentro de um saco, jogado na caçamba. Aí apareceu a dona Zuleide, gritando feito doida, você sabe como ela é — começou Beatriz.

— A gente ficou com medo e correu pra casa — completou Lavínia.

— Foi tudo meio por acaso, e o gato acabou ficando aqui. Mas não dava pra jogar ele de volta no lixo, né? A gente até deu banho nele — disse Manuela, a voz embargada, torcendo a barra da camisola entre os dedos.

Ronaldo suspirou. As palavras da cigana voltaram de repente à sua cabeça.

— Pois é… presente dos bons — murmurou, olhando para aquele batalhão de três.

— Amor, talvez as meninas tenham razão. Dá pena do gato, pensa no que ele deve ter passado. E olha como ele é calminho e carinhoso — Patrícia veio em socorro das filhas.

Ronaldo ficou pensando, pesando a situação.

— Ele ainda vai caçar rato pra gente, aposto! — Lavínia jogou o argumento final.

— Mas nunca tivemos rato nessa casa — Ronaldo respondeu, meio abatido.

— Nunca se sabe, outro dia escutei um barulho estranho atrás da parede da cozinha — Manuela apoiou a irmã.

— Tá bom, bandidas. Vamos ver como vocês vão se comportar daqui pra frente. E o comportamento do Lulu também vai contar — Ronaldo acabou rindo.

— E por que Lulu? — Patrícia quis saber.

— Vocês tinham que ver como ele ronrona engraçado quando a gente faz carinho na barriga dele — as três sorriram.

— E afinal, o que tinha dentro daquele envelope? — Manuela insistiu.

Patrícia ficou meio encabulada. Foi até o quarto e trouxe uma caixinha, com o envelope dentro.

— Não acredito — Ronaldo murmurou, a voz embargada, olhando o conteúdo. Era um exame de ultrassom, com a data marcada para duas semanas depois, e um bilhete da esposa: "Dessa vez, é menino."

Por um segundo ninguém se moveu, e no instante seguinte a casa explodiu em gritaria. Ronaldo não conseguiu segurar as lágrimas, abraçando Patrícia com o gato espremido entre os dois, miando de protesto.

Naquela noite, já na cama, Manuela cochichou para a irmã:

— Olha que o Theo vai ser ótimo. Mas acho que o Lulu também deixou o papai arrasado de felicidade.

— Nosso Lulu é um traidor — resmungou Lavínia. — Dois dias dormindo com a gente, e hoje já passou pro quarto dos nossos pais.

— Relaxa. No fundo ele sempre foi o gato do papai — Manuela riu baixinho.

Do outro lado do corredor, Ronaldo ouvia o ronronar baixinho do gato enroscado aos seus pés.

— Que som mais gostoso. Por que a gente não teve um gato antes? Não entendo — ele cochichou, puxando Patrícia para mais perto.

— Aproveita o sossego, porque daqui a uns meses essa casa não vai ter mais silêncio nenhum — ela riu.

— Sabe que ainda não caiu a ficha de que vamos ter um filho homem? Obrigado, meu amor. Melhor presente da minha vida — Ronaldo fechou os olhos, com um sorriso nos lábios, o gato ronronando entre os dois e o envelope esquecido em cima do criado-mudo, guardando a notícia que tinha mudado tudo.

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O gato que caiu do oitavo andar e o envelope que mudou tudo